sábado, 5 de julho de 2014

O Enforcamento


 
 
A folha branca arrefece

os astros de fogo

do espaço

escuro do coração.

 

A Solidão apaga-se

nas palavras graves

que me fazem

ecoar agudamente

dentro de grades

abertas em parágrafos desertos.

 

Silabo os versos

que escorrem como veneno

que fica contra a pele.

Sinto o sabor a fel

na minha boca.

 

Não falo contigo.

Não me ouves.

Escrevo-te.

De nada serve!

As Palavras são rígidas.

Apenas maleáveis com a voz.

 

O corpo torna-se

o rio que escorre lentamente

e contorna os desejos

que afasto com gestos fugitivos.

Fico imóvel,

mas deslizante.

 

Nada passa

pelo lado de fora,

quando me agarras

por dentro.

Abres-me.

Libertas o meu rosto

no espelho de água

onde me vês.

Suspiras para o céu

onde me crês.

 

Enforco-me, assim.

Perco a cabeça.

Tudo se reinicia.

Não fica indício

do enforcamento.

Este é o princípio

em ti,

meu amor.

3 comentários:

  1. Palavras escritas ecoam no cérebro. Porém, não adoçam nem pacificam um coração sofrido.

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  2. Este poema foi lido no InVersos! Pode encontrar o video com a declamação em http://inversos.pt.vu.

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