quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Cheguei




Cheguei sem rasgo

de lucidez

mas com a roupa rasgada.



Venho pouco católica

mas tu chamas me Maria

e eu pergunto se

queres vir a banhos.



Manténs- te assim dentro

e nada arrefece.

Vamos brincar com o fogo

que não se vê.



E eu rezo para que

te mantenhas perto.

Para manter a fé

e tudo se manter

em pé.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Padre meu



Foto: Ruslan Lobanov


Padre meu, que estais na terra,

Santificada seja a sua presença.


Venha a mim o vosso alimento,

que trazeis debaixo da batina,

para a comunhão e consagração do meu perdão.


Seja feita a vossa vontade assim no chão

como em qualquer lugar que vos possa agradar.

O alimento que cresce em vós, me dai hoje

para as profundezas de mim.


Perdoai as minhas omissões de desejo

assim como perdoo a ausência do vosso corpo,


Deixai-me cair em tentação e livrai-me do fogo,

Amém.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Apetite





As revoluções ocorrem

a solo,

sentados à mesa.



Na onda

do bota abaixo,

no restaurante quiseste

o aperitivo

e eu subi o vestido.



Trazia os seios envergonhados

e tu a desejar

que estivessem  destapados.



Rasgaste a roupa.

Trinchaste a pele.

Passaste a língua pelo molho.



Tremes.

Arrepio-te.

Suspiro.



Não quero os buracos

preenchidos com palavras.

Quero vácuo.

Tira-me o ar.



Vamos cair.

Gosto de catástrofes.



Sairemos ilesos

sem estarmos presos

a cartas predefinidas.



Agora podes pedir a comida.

Mas se não te faço falta,

não a peças.



Vamos abrir a noite

ou não tens apetite?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Por onde andas?

Foto: Anton Zhilin

Engulo o leite para crescer.

Dizem que tem cálcio.

Lavo as mãos na fonte.



Fecho as palavras dentro da boca.

Na língua está a intimidade.



Já não planto arvores.

Espero que cresçam fortes

e morram de pé.



Deito fora a alma,

agora que me expulsaste do Paraíso.

Quero saber como te soltas,

agora que me fizeste engolir tudo;

agora que me despenteaste o cabelo.



Por onde andas,

agora que tenho o diabo

no corpo? 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Salvar-te




Quero prender os teus gestos

no corpo

para não perder a intimidade

que trago na boca.



O peito sobe e desce.

Não caio nos braços

de ninguém.



Fazes dançar os teus

dedos em mim

e descobres o lado amargo e negro.



Fazes-me fechar os olhos.

Melodias-me.



Quero salvar-te em mim

antes que a fome nos mate.

domingo, 18 de junho de 2017

Rendes-te?




Foto: Paolo Lazzarotti

Prova-me

mas não me proves nada.



Morde-me o lábio

mas não me comas

as palavras.



Não (te) inspires.

Expira para relaxar.

Acaba a tensão.



Falha-me o chão

e eu não tenho rede.



Inventa as regras para me comportar.

Sabes, sou a exceção.

Queres dar-me a volta

mas não há volta a dar.



Faz-me suar no gelo.

Provoca-me o abismo



Não tiro a roupa.

Rendo-me.

E tu,

rendes-te?

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Há aqui qualquer coisa



Foto: Paolo Lazzarotti

Há qualquer coisa de indecente,
quando me deito comigo.
Num jeito inocente e frágil,
desarrumo o corpo
para encontrar o que o faz vibrar
como a terra.

Há qualquer coisa de indecente
na nudez inquieta
que explode nas mãos
e me faz beber a luz
da carne
quando o eco das paredes gemem.

Há qualquer coisa no contorno
incerto das coisas.

Se ficares, ensina-me a cair.
Se (te) vens, ensina-me a voar.

Eu não sei…..
mas há aqui qualquer coisa.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Se



Se surgir em flor
podes desfolhar-me.

Se surgir como areia,
não te metas comigo.
Mete-te dentro de mim
feito mar que se enrola
de fora para o in(fim)nito.

Se surgir feita caravela
e começar a divagar demais,
coloca-me a mão no ombro
e não me faças ir por viagens banais.

Se surgir como cobra,
descama-me mas não me dispas.
Agarra-me pela ponta dos cabelos
e ficarei no fio da navalha,
logo que tragas a adaga
e me deite na parede.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O que trazes contigo?




Foto: Paolo Lazzarotti

O que trazes contigo, hoje?

Os aromas são sabores que desconheço.

Passas por mim

e não te conheço.



Nao faças caso de mim à noite.

Faz de mim um caso teu

todos os dias.

Juro que não me caso,

caso nada aconteça.



Que sabor trazes contigo?

Quero saber.

O que trago,

eu não digo.



Escorre um suor noturno

e algo palpita no coração

da flor.

É exato.

Mecânico.



Viverei com isso até à morte.

Para saberes como palpita,

descobre o instinto guloso

que bombeia o desejo.



Diz que me matei,

quando recolheres a minha vida

expirada no teu colo.

Serei a menina

com instintos fatais.



Afinal, o que trazes contigo?

domingo, 14 de maio de 2017

Olha só




Olha só,

sou uma gata

que anda nos telhados

a fazer versos para a lua

e que pede desejos

às pessoas na rua.



Olha só,

Sou uma cobra

que trocou de pele,

deixando-a no chicote

das tuas mãos.



Olha só,

trago palavras

dentro de beijos.

Tenho estado em

silêncio.



Olha só,

sou um anjo

a quem prendeste os pés

e pediste que voasse.

Deixei-te sozinho

Sem ter partido,

regressando devagarinho.



Olha só,

o que te digo não é erótico.

Não é sensual.

Retira a pontuação.

Retira a roupa.

Acabou o mundo.



Os anjos não têm sexo.

(Nunca se sabe o que virá

depois.)

domingo, 30 de abril de 2017

Arte




Axel L.

Ando às voltas.

Descubro o corpo.

Sinto.

Percorro.

Invado.



Rasto viscoso

de fome.



A verticalidade

estrangula-me.



Empurro-me

contra o punhal.



Afinal,

quando as pernas

se abrem

como um cavalete,

a arte nasce.


sábado, 22 de abril de 2017

Cai mas não tropeces



Foto: Axel L.

Senta-te na mesa.

Temos de falar.



Pouso as mãos

nos teus joelhos

e digo te que sim.



Dispo-me a preceito

e coloco-me a jeito.



Queres que arda na tua fogueira

mas só acontecerá

de uma maneira:

Trazes a vela para festejar?



Porei os lábios onde quero.

Néctar.

Vou e volto.

Atinjo-te.



Com graça animal.

Faço-me bicho da terra.



No inferno

há sempre uma fonte

sempre a pingar.



Se a vela se mantém

acesa,

alguém tem de a apagar.



Enterra-a nos confins da terra.



Descobre o desejo

na gota de água.



Cuidado!

Não tropeces

no meu corpo.



Cai…………

na tentação da carne

que não levas.

domingo, 9 de abril de 2017

NÃO ME RECOMENDO




DEDICO ESTE TEXTO A TODOS OS QUE LONGE OU PERTO ME ACOMPANHAM NESTA JORNADA

8 de abril de 2017

Pois claro que não, e então?

Poderia gabar-me, por que não? Mas não faço esse tipo de avaliações pessoais. Não agrado a todos. Não sou perfeita. Não sou a rainha de Inglaterra, digamos. Sou uma pessoa banal mas não vulgar. Poderia falar de conquistas e de coisas belas e amarelas. Mas de coisas boas toda a gente gosta. Será que conseguem lidar com o escuro? Duvido. Portanto este texto não é sobre as minhas maravilhosas qualidades, lamento.

Nasci antes do tempo. Sou mais velha do que aparento. Tenho esqueletos no armário. Deve ser por isso que nem sequer vou aos saldos que é para não ter de ir mexer em teias de aranha. Prefiro saldos literários.

Dizem que estou velha e eu a julgar que estava a chegar ao auge. Bem sou uma estrela cadente.

Já me disseram que devo ter poderes especiais pelo meu olhar trocado. Sim porque isto de trocar olhares tem muito que se lhe diga. Depois de me dizerem isso, destrui os sonhos de pessoas. Limitei-me a dizer que posso provocar sentires ou qualquer coisa. Isso sim, é um grande poder.

Fui, ao longo do tempo,  um elo mais fraco que muitos julgaram incompetente. Incapaz. Julguei que seria verdade. Tenho deixado muitos de boca aberta e não sou dentista.

Sim pode dizer-se que sou assustadora porque enfeitiço os outros com as palavras que escrevo, pelo que dizem. Visto me de preto e julgam-me elegante.  Sou uma bruxa basicamente.

Ao longo de 30 anos atiraram-me areia para os olhos. Julgo que com toda essa areia poderia criar uma praia (sitio que nunca achei piada mas, segundo poetas entendidos é um local de grande inspiração). Agora que mudei de lentes vejo a praia com outros olhos.

Também já meti muita água e logo eu que nem sequer sei nadar. Talvez quisesse assim ganhar alguma prática.

Nunca me consideraram um doce de pessoa.  Pois claro que não! As formigas não andam à minha volta.

Sempre me disseram que era fria. Bem tenho as mãos com frieiras no inverno e as mãos sempre a baixa temperatura. Deve ser por isso. Portanto sou morta-viva.

Nunca fiz das pessoas rotundas. Nunca achei piada a isso pois da ultima vez que me encostei a uma fui parar ao meio das urtigas (sim é verdade) , local para onde me mandam às vezes, mesmo sem palavras.

Nunca escrevi palavras bonitas. As que tenho escrito ultimamente trazem consigo sentidos ocultos que as pessoas vêem muito alem. (Nem eu com óculos consigo ver). As fotos que coloco são religiosas até. Não tenho culpa que algumas modelos se tenham lembrado de tirar a roupa. Enfim limitações de perspetiva.

Nunca soube dizer as palavras certas no momento certo e muitas delas nem sequer me atrevo a pronunciar. Pronto não jogo com o dicionário todo. Limitações vocabulares.

Tenho consciência que se um dia deixar de escrever será por um excelente motivo ou por um péssimo motivo. Nunca se sabe. Por agora continuo a espalhar charme por ai.

Nunca soube lidar com as pessoas. Por vezes elas conseguem assustar-me. E eu tenho medo e escondo-me porque não gosto das luzes.

Dizem me que ando rasteirinha e é bem verdade.  Não gosto de usar saltos altos. Apesar disso, estou quando julgo que sou necessária.

Assusta-me a solidão e a sensação de ficar sozinha preocupa-me. 

Depois disto desejam me o feliz aniversário? Dou-vos os parabéns  :D

Coragem!

Pronto, agora acendam a luz e vão dar uma volta.

Agradeço a todos os que se lembraram desta cota :D

Um abraço daquela que está pronta para as curvas e a espalhar charme deste 1987

P.S. Deixo-vos um bolinho doce para regalarem a vista.

domingo, 2 de abril de 2017

Flores de Abril




Foto: Sebastian Faena

O vento empurra-te para mim.

Deixo cair os caracóis,

lentamente,

pelas costas.

A língua desloca-se

isolando os gritos

dos olhos fechados.



“O vestido é indecente….”

(as árvores despem-se

no Outono)

(…) “devias tirá-lo”.



E tudo cai

e se mantem firme.

A terra está orvalhada

e o corpo com impulso.



Pássaros chegam

e pousam nas ancas

e fazem o ninho entre

as pernas.



Esvoaçam.

Agitam a vida

desvendando os mistérios

do corpo,

abrindo as flores

de abril.