sábado, 18 de fevereiro de 2017

Corpo




Foto: David Ben Haim

O meu vício

é atirar-me para cima de ti

como se fosses um precipício.

Gosto de queda livre.



Beija-me para encontrares o céu.

Ele está na Terra.

Assim já podes voar

sem levantares os pés do chão.



Não percas o gesto

sentido,

se vires o corpo

despido.



Afinal,

Um cabide com roupa

é um corpo sem

Alma.



Segura-me na mão.

Morde-me o pulso.

Vai até ao ombro.

Desliza até ao pescoço:

é aí que passa a guilhotina.

Posso perder a cabeça.



Sabes,

escondo-me atrás

de coisas simples:

roupa descartável.



Nada disto é mentira.

Quem vos escreve

é um corpo que respira.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pequenina




Foto: Axel L.


A nudez do corpo

é uma ideia vaga e solta.

Bebo o teu hálito

e uma ilha surge.



Pousas os lábios no peito

e nascem estrelas nuas.

Eu sinto-me pequenina.



No plano somos

pontos coincidentes

e alongamo-nos infinitamente,

sem paralelismos.



Gostamos do que é perpendicular

para nos podermos encontrar

em qualquer lugar.



Os abraços são bons,

dependendo do ângulo.

É bom o que é agudo

 e isso não é grave.

Apenas mais apertadinho.



Queres aumentar a intensidade?

Vamos dar uma volta

pois isso será giro,

para depois rasarmos tudo

entre quatro paredes.



Mas eu sou pequenina

para dormir

entre os teus braços.

Ponto.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Anjo Fumegante




As tuas mãos dão asas

à roupa que

pousa no chão.



Beija-me a boca

como se cortasses os pulsos.

Devora-me o cabelo.



Esfrega-te no muro

areado de cimento

e deixa a tua carne.



Extinguir-te.

Tornar-me invisível

ao tempo.



Forças as entranhas

escancaradas.

O leite que te sobe

à cabeça,

pulsará dentro de mim.



Há camas sem sono.

A terra agarra-te.



Escondo os seios

no teu corpo.

Já não há lençóis:

apenas a ternura amarrotada

que te passa

a ferro pelos  dedos.



Perfil.

Silhueta.

Anjo fumegante.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Diversão de morte




Foto: Kristian Liebrand


Apanhei o cabelo.

Não gosto de ter nada

à frente dos olhos.

Gosto de ti.



Sabias que as pessoas

são esqueletos cobertos de pele?

Mas eu não quero

que vejam o meu.

Depois cobiçam a minha existência

e dizem que sou pele e osso.

E eu, ouvir isso,
não posso.



Sabias que a pele tem muitos poros?

Há muitos buracos por onde podes

entrar e fazer

a minha pele respirar.

A terra é fria

como a cova

que o corpo provoca,

quando me empurras para lá.



Sabias que podes conservar-me?

Podes colocar-me no congelador.

Não podes tocar-me.

Sou casta e o teu calor

desconstrói-me.



Sabias que a língua

é a nossa pátria?

Então vou colocar a minha

na tua boca.

Está bem! Chama-me louca.

É lá a sua casa!



Depois de escrever,

irei morrer

de riso.

Vou guardar

o sorriso na mão,

um pequeno caixão.



Tudo para que faças o contrário:

o ressuscites,

quando deixares de

marcar no calendário.



Entretanto,

tenho esta diversão de morte.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Gostas do escuro?



Sou gulosa.

Gosto de sentir o sabor do desejo

na ponta dos dedos.

Para ir sempre

mais além,

na insuficiência

da minha existência.



O que queres não sei.

Deixo o corpo fora da roupa.

Se dizes que gostas de mim,

tens o mundo ao contrário.

Como açúcar quando escrevo,

por isso sou um doce.



Acordas-me com raiva

mas não me mordes.

Entre a saliva e a língua,

Será que podes

pôr-me a morder

o lábio?



Queria dizer tudo

para que desejasses
saber o resto.

Mas isso não interessa.

Quando descobrires o meu lado escondido,

dirás que não presto.



Eu não sou detergente

para lavar roupa suja.

Não poderás acompanhar-me

na diferença.

Sou a que vai pela verdura,

formosa mas pouco segura.



Apenas te pergunto:

gostas do escuro?

domingo, 8 de janeiro de 2017

A gata





Foto: Axel L.

Durmo debaixo da roupa.

Estou escondida.

Para que desperte,

tens de descobrir-me.

Despe-me.



Riscas a minha pele.

Fazes de mim a brasa

que a fogueira atrasa.



Acordo algemada nos teus braços

e tu ficas com a boca

no corpo.



Seguras o frio das mãos

e creio que ficarás

com uma constipação.



Deita-te dentro de mim.

Embala-me.



Nunca me reconhecerás

quando apagares

as tuas marcas

do meu peito.



Sempre que se ouve um gemido,

ele fica retido

no parágrafo silencioso.



Por isso,

quero ser gata

e ter várias vidas .

domingo, 1 de janeiro de 2017

Letra aberta




Foto: Poluyanenko Alexey

Nada do que está aqui

é inspirado.

Por isso,

pousa os teus dedos na pele

e escreve um poema arrepiado.



Não colocarei o pé na argola,

mas do meu vestidinho

irei soltar a roda.

Colocar um sapato baixinho

e espalhar o charme.



Não trago instruções.

Sei apenas ouvir

o bater dos corações.



Quero sentir o teu peito

minhas costas.

Solta o cheiro

do corpo descoberto.



 Deixas-me entre a espada

e a parede,

quando te encostas a mim.

É uma paixão sem saída.



Mordes-me os lábios

para me rasgares o hálito.
Soltas-me a boca.



Com a respiração ofegante

ao teu ouvido,

peço-te que me leves ao Paraíso

com tudo e coisa nenhuma.



Procuro na intimidade

do texto,

o orgasmo.



Quero a castidade

vestida de nudez.



Estando contigo,

 estou bem

como uma letra aberta.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O fio e a navalha


Foto: Axel L.


Vejo-me outra

longe de mim.

Faço um rabo de cavalo

para que o corpo

fique descoberto.



Abro as portas

da residência

sem qualquer

resistência.



Quando menos me tocas,

mais me tens.



Esgueiro-me para a esquina.

Em volta da cintura

Lavra o incêndio

que crepita nos dedos.



Afogo a tua sede

depois de me encharcares.

Regresso casta.



A boca obedce

e o sabor se morde.



Há a fusão:

carne e calor.

Arromba-me para que nada reste.



Suspiro.

Imploro para que

sejas a navalha

e eu o fio.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Feliz Natal



A todos vós, leitores, que seguis os meus espaços, e público em geral, desejo um FELIZ NATAL!
Agradeço o vosso carinho e atenção. Sem vocês nada disto seria possível. 
  Uma boa inspiração para este Natal é, sem dúvida estar na companhia dos que mais amamos. Venham daí os doces e aconcheguem o vosso coração com um pouco de poesia. Vamos ter frio este Natal. Agasalhem-se com alegria, boa disposição e uma mantinha .
            
           Um abraço, Ana

domingo, 18 de dezembro de 2016

O que faço contigo?



No fundo, bem lá no fundo,

sei que não sinto.

Dou o corpo coberto de gesto

e não é nada mais do que absinto.



No fundo, bem lá no fundo,

dou a mão bem esticada,

mas podia dar as duas,

para agarrar a tua imaginação.

Não me segredes desejos.

Tudo o que sou é ilusão.



No fundo, bem lá no fundo,

Sou uma música solta

que tu ouves,

mesmo não sabendo onde estás.

Fica o sorriso na mesa detrás.



No fundo, bem lá no fundo,

sou mal comportada

e quero namorar ao teu ouvido.

Mas sei que és surdo

e não ouves o que digo.



No fundo, bem lá no fundo,

deixo-te os silêncios escritos sem voz,

fora do normal.

Fecha a janela virtual.

Existe uma mulher real.



No fundo, bem lá no fundo,

aguardo que me digas,

o que faço contigo.

Eu já não consigo.




domingo, 11 de dezembro de 2016

O crime




Os meus sentidos

dizem-me o que é proibido.

Perder-me sem pudor.

Só de pensar nisso

já sinto calor.



Procuro a resposta

no reverso das tuas costas.



Vou dar um passo

para o abismo.

Morder como quem beija

para ser alguém que seja

capaz de provocar os gritos

debaixo da pele.



Entrego o coração

para que o atires para longe.



Morrerei na medida

em que te desejo.

Um desejo com raízes de vento.



O problema

é que eu ainda não sei morrer.

E tu, és capaz de

 matar-me (de desejo)?



Será o crime perfeito.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Brutal





Vês a brutalidade da sensualidade

que carrego nas mãos.

Armas de erotismo que aponto

Para ti.



Sento-me na cadeira

E não há maneira

De não me sentir submissa.



Anseio ouvir-te.

Estou com a pele

Viva e quente.

Seguras nas minhas mãos

para prender o meu corpo inocente.



A tua voz quente

vibra no meu ouvido.



Pensas-me indefesa.



Queres levar-me à lua.

Para isso preciso de te pedir

que me possuas.



A viagem é longa.

É preciso ir devagar

para chegar bem e depressa.



Viajas fora do meu corpo.

Traças trajectórias cadentes

de beijos incandescentes.



Dominas todas as ruas.



Os teus dedos na

garganta

apertam-me as palavras.



Esticas a corda.

Puxas-me para ti.

O meu tronco eleva-se.



Deixas-me riscar-te

as costas.

Sem erros.



Ficas entre as minhas coxas.

Fecho os olhos em gemidos.

Preciso do sabor da terra.

Preciso do perfume doce

que paira no ar

quando somos cremados

na fogueira dos sentidos.



Isso sim:

é brutal!