sábado, 22 de abril de 2017

Cai mas não tropeces



Foto: Axel L.

Senta-te na mesa.

Temos de falar.



Pouso as mãos

nos teus joelhos

e digo te que sim.



Dispo-me a preceito

e coloco-me a jeito.



Queres que arda na tua fogueira

mas só acontecerá

de uma maneira:

Trazes a vela para festejar?



Porei os lábios onde quero.

Néctar.

Vou e volto.

Atinjo-te.



Com graça animal.

Faço-me bicho da terra.



No inferno

há sempre uma fonte

sempre a pingar.



Se a vela se mantém

acesa,

alguém tem de a apagar.



Enterra-a nos confins da terra.



Descobre o desejo

na gota de água.



Cuidado!

Não tropeces

no meu corpo.



Cai…………

na tentação da carne

que não levas.

domingo, 9 de abril de 2017

NÃO ME RECOMENDO




DEDICO ESTE TEXTO A TODOS OS QUE LONGE OU PERTO ME ACOMPANHAM NESTA JORNADA

8 de abril de 2017

Pois claro que não, e então?

Poderia gabar-me, por que não? Mas não faço esse tipo de avaliações pessoais. Não agrado a todos. Não sou perfeita. Não sou a rainha de Inglaterra, digamos. Sou uma pessoa banal mas não vulgar. Poderia falar de conquistas e de coisas belas e amarelas. Mas de coisas boas toda a gente gosta. Será que conseguem lidar com o escuro? Duvido. Portanto este texto não é sobre as minhas maravilhosas qualidades, lamento.

Nasci antes do tempo. Sou mais velha do que aparento. Tenho esqueletos no armário. Deve ser por isso que nem sequer vou aos saldos que é para não ter de ir mexer em teias de aranha. Prefiro saldos literários.

Dizem que estou velha e eu a julgar que estava a chegar ao auge. Bem sou uma estrela cadente.

Já me disseram que devo ter poderes especiais pelo meu olhar trocado. Sim porque isto de trocar olhares tem muito que se lhe diga. Depois de me dizerem isso, destrui os sonhos de pessoas. Limitei-me a dizer que posso provocar sentires ou qualquer coisa. Isso sim, é um grande poder.

Fui, ao longo do tempo,  um elo mais fraco que muitos julgaram incompetente. Incapaz. Julguei que seria verdade. Tenho deixado muitos de boca aberta e não sou dentista.

Sim pode dizer-se que sou assustadora porque enfeitiço os outros com as palavras que escrevo, pelo que dizem. Visto me de preto e julgam-me elegante.  Sou uma bruxa basicamente.

Ao longo de 30 anos atiraram-me areia para os olhos. Julgo que com toda essa areia poderia criar uma praia (sitio que nunca achei piada mas, segundo poetas entendidos é um local de grande inspiração). Agora que mudei de lentes vejo a praia com outros olhos.

Também já meti muita água e logo eu que nem sequer sei nadar. Talvez quisesse assim ganhar alguma prática.

Nunca me consideraram um doce de pessoa.  Pois claro que não! As formigas não andam à minha volta.

Sempre me disseram que era fria. Bem tenho as mãos com frieiras no inverno e as mãos sempre a baixa temperatura. Deve ser por isso. Portanto sou morta-viva.

Nunca fiz das pessoas rotundas. Nunca achei piada a isso pois da ultima vez que me encostei a uma fui parar ao meio das urtigas (sim é verdade) , local para onde me mandam às vezes, mesmo sem palavras.

Nunca escrevi palavras bonitas. As que tenho escrito ultimamente trazem consigo sentidos ocultos que as pessoas vêem muito alem. (Nem eu com óculos consigo ver). As fotos que coloco são religiosas até. Não tenho culpa que algumas modelos se tenham lembrado de tirar a roupa. Enfim limitações de perspetiva.

Nunca soube dizer as palavras certas no momento certo e muitas delas nem sequer me atrevo a pronunciar. Pronto não jogo com o dicionário todo. Limitações vocabulares.

Tenho consciência que se um dia deixar de escrever será por um excelente motivo ou por um péssimo motivo. Nunca se sabe. Por agora continuo a espalhar charme por ai.

Nunca soube lidar com as pessoas. Por vezes elas conseguem assustar-me. E eu tenho medo e escondo-me porque não gosto das luzes.

Dizem me que ando rasteirinha e é bem verdade.  Não gosto de usar saltos altos. Apesar disso, estou quando julgo que sou necessária.

Assusta-me a solidão e a sensação de ficar sozinha preocupa-me. 

Depois disto desejam me o feliz aniversário? Dou-vos os parabéns  :D

Coragem!

Pronto, agora acendam a luz e vão dar uma volta.

Agradeço a todos os que se lembraram desta cota :D

Um abraço daquela que está pronta para as curvas e a espalhar charme deste 1987

P.S. Deixo-vos um bolinho doce para regalarem a vista.

domingo, 2 de abril de 2017

Flores de Abril




Foto: Sebastian Faena

O vento empurra-te para mim.

Deixo cair os caracóis,

lentamente,

pelas costas.

A língua desloca-se

isolando os gritos

dos olhos fechados.



“O vestido é indecente….”

(as árvores despem-se

no Outono)

(…) “devias tirá-lo”.



E tudo cai

e se mantem firme.

A terra está orvalhada

e o corpo com impulso.



Pássaros chegam

e pousam nas ancas

e fazem o ninho entre

as pernas.



Esvoaçam.

Agitam a vida

desvendando os mistérios

do corpo,

abrindo as flores

de abril.

domingo, 26 de março de 2017

Fome




Foto: Ruslan Lobanov


Percorremos a via-sacra

ao sabor do instinto.



Não há maldade.

Podia ser freira

mas desprendi-me do hábito

(antigo).



A palavra morde a língua.



Há a queda nas estações.

Por aqui é Primavera

ou  Verão.



Não há duas sem três.

Caio de quatro.

Carne.

Terra.

Decomposição.

Ejacula.

 Boa-fé.



Há círculos de fome

Na matéria.



Regressámos nus

com a violência

do grito sem literatura.



Seja feita a nossa

vontade na terra.



Oremos para a fonte nunca secar.



Sejamos fiéis

e mantenhamos a convicção:

não há fome

que não dê em fartura.

terça-feira, 21 de março de 2017

Jogas?




Foto: Paolo Lazzarotti


Agora vou dizer

coisas sem nexo.

Nada de complexo.

Algo vulgar

que a poesia permite.



Queres que te guarde na boca.



Deslizar sem ruido.



Quero morar na tua carne.
 

És um enigma singular.

Quero desvendar-te

do lado de dentro.



Inspiro (-me)

e assim ficas dentro

dos meus pulmões.



Os desejos ficam

latentes

nas palavras do corpo.



Quando a roupa cai,

não penso

(para com os meus botões).

Não procures explicações



É esse jogo noturno

que não podes perder.

Jogas?

domingo, 12 de março de 2017

Espaço





Foto: Rosário Pereira

Ando sempre nas alturas.

Por isso,

não te chego aos calcanhares.

Quase subo pelas paredes

com as pernas cruzadas.



Toma o meu corpo.

Tem um cuidado intensivo

com ele.



Na boca, as palavras

trazem razão

mas depõem contra

o coração.



Os verbos irregulares

trazem ações imprevisíveis

dentro de mim.



A urgência dos olhos,

a mensagem nos lábios

que traz a palavra indecente,

como se entrasses

pela minha roupa a dentro.





E o coração bate sob a blusa

ardente,

sem saber bem o que sente.



Estendo as pernas

e aguardo o toque

da origem do Mundo.



Um espaço para permanecer.


domingo, 5 de março de 2017

A metáfora






Foto: Tony Schuller


“Tenho pena de ti”.

Estou com a pena suspensa.

Prestes a ser condenada

Sem ainda ter feito nada.

Uma lágrima de crocodilo

no canto do olho.

Não escrevo mais

para não abater

mais árvores.



Não digas que adoras

os meus olhos.

São apenas dois globos oculares

com uma irís colorida.



Não desejes o beijo.

São apenas trocas de fluidos

salivares.

Não os compares ao mar.

Ele é imenso mas não

mata a sede.



O coração não tem sentimentos.

É apenas um músculo

que bate ao ritmo

da tua massa cinzenta.



Nunca me apaixonarei

à primeira vista.

É bonito mas eu tenho duas.

Eu não gosto de mentiras.



O poema ensina

a cair.

Mantem-te firme.

Eu já estou com

os cabelos em pé.



No final,

a metáfora

é o véu do que sentes.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Guarda-te



Foto: Paolo Lazzarotti


Frio,

trago-te no bolso.

As pernas não me levam

a lugar algum.



O cloreto de sódio

armazeno-o nos olhos,

se o quiseres analisar.



Num movimento suicida,

leva-me para a cama

para me roubares

as roupas, o gesto, o toque.



Guarda tudo no cofre da cama.

No oceano da boca,

fica submerso o beijo

que morre na língua.



Há a cadência líquida que escapa.



Enterra-te bem

nas entranhas carnais,

depois de me autopsiares.



É o segundo certo

em que te guardas em mim.




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Corpo




Foto: David Ben Haim

O meu vício

é atirar-me para cima de ti

como se fosses um precipício.

Gosto de queda livre.



Beija-me para encontrares o céu.

Ele está na Terra.

Assim já podes voar

sem levantares os pés do chão.



Não percas o gesto

sentido,

se vires o corpo

despido.



Afinal,

Um cabide com roupa

é um corpo sem

Alma.



Segura-me na mão.

Morde-me o pulso.

Vai até ao ombro.

Desliza até ao pescoço:

é aí que passa a guilhotina.

Posso perder a cabeça.



Sabes,

escondo-me atrás

de coisas simples:

roupa descartável.



Nada disto é mentira.

Quem vos escreve

é um corpo que respira.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pequenina




Foto: Axel L.


A nudez do corpo

é uma ideia vaga e solta.

Bebo o teu hálito

e uma ilha surge.



Pousas os lábios no peito

e nascem estrelas nuas.

Eu sinto-me pequenina.



No plano somos

pontos coincidentes

e alongamo-nos infinitamente,

sem paralelismos.



Gostamos do que é perpendicular

para nos podermos encontrar

em qualquer lugar.



Os abraços são bons,

dependendo do ângulo.

É bom o que é agudo

 e isso não é grave.

Apenas mais apertadinho.



Queres aumentar a intensidade?

Vamos dar uma volta

pois isso será giro,

para depois rasarmos tudo

entre quatro paredes.



Mas eu sou pequenina

para dormir

entre os teus braços.

Ponto.