Foto: Antonio Diaz
Os poemas são portas abertas,
dizem,
e por isso não as poderia fechar.
Acabei por me entalar.
Dei o meu corpo
ao ofício
e até me cegaram os olhos
de dor.
Fiquei fechada cá fora.
Algo se passava do lado de dentro,
debaixo do céu.
Sentei-me,
num canto qualquer
à sombra
da luz.
Cobri o rosto com as mãos
e fechei os olhos
à realidade e abri os olhos para
a alucinação.
Ficou o odor
das rotinas,
do que existe
para além da fronteira
do meu corpo.
Ouvi histórias
inventadas
em negros traços orais,
sussurrados em noites brancas.
Não conheço o sabor
das palavras salivadas
no céu da boca.
Nunca as disse.
O toque trouxe a suavidade
do pó consolidado
do esqueleto que
me agarra o rosto.
Disseram-me para escrever
nas paredes
pois são lisas e duras.
Posso gravar o que quiser.
Basta ir para a sepultura.
Vela, agora, as minhas últimas palavras
caligrafadas,
que te deixo
como herança.
Estou fechada cá dentro,
fora de ti.





