sábado, 8 de agosto de 2015

Hoje


 
 
Foto: Ario Wibisono
 
 
 
Hoje o corpo beija o chão

quando me deixas

na cova do leito.

 

Roçaste na minha boca

para alimentar a prece.

Tornaste-te devoto.

 

Hoje prendeste-me

na tua voz.

Fiquei atrás das grades.

 

Arrefeci o corpo

para ficar vazia de emoções.

Nada pode fazer borboletar

as entranhas.

 

Arranquei o coração.

Coloquei-o para reciclar.

As loucuras são para reinventar.

 

Lancetei a pele

para ver o reverso.

Conheci a dor de cor

mas não irei recitá-la.

 

Crema-me.

Faz arder o desejo.

Ilumina-me.

 

Deixaste pétalas insipidas

para disfarçar o cheiro

que se mistura

com a tua inexistência

viva.

 

Abandonei o meu corpo.

Nada me prende a ti.

 

Enterrei-me

a teu lado.

Acordei para ti

na terra que respiro

contigo.

domingo, 2 de agosto de 2015

O perfume


 
Foto: Peter Volanek
 
 
Desço da tela

esfumada

em tons esbatidos,

aos teus lábios.

 

Acende o rastilho.

Inspira-te.

Expira-me. 

 

Sente o calor

da insónia.

Perde o chão.

 

Desfia-me

em partículas suspensas.

Torno-me combustão.

 

Revolvo-te as entranhas

em ansiedade crescente.

Fica o hálito baço.

No teu corpo fechado,

fico em ti.

ficas sem cor.

 

Flutuo no vazio,

nua.

Respira o ar

onde deitas

o meu corpo.

 

 

As labaredas acendem

a tua carne.

Tolda-te o sentido.

Desfazes-me.

Recolhes as cinzas.

 

A eternidade efémera

consolida-se.

 

Sente a humidade

da terra.

Apaga a fome.

Sente o cheiro

da rosa insipida.

 

Fecha os olhos.

Sentirás o encanto

do meu perfume.

domingo, 26 de julho de 2015

Enfeitiça-te


Foto: Anekceeb
 
Atravesso a brancura inocente

que virgem violo.

Acolhe-me o que é visível.

O sopro mágico

faz o vazio falar.

 

Ninguém pode salvar-me

do que pode matar-me.

 

Embala-me o som

do silêncio,

marés de palavras ecoadas

no espaço.

 

Parte-se o espelho.

Ficam estrelas cadentes

trituradas.

Acabou-se a magia.

 

Descobre o mistério da reflexão.

Vê abertamente por dentro

o que se oculta

pelo lado de fora.

 

Afasta as nuvens.

Torna-me transparente.

 

Mastigo o silêncio.

Engulo a palavra,

sopro de luz.

 

Sobe até à ponta dos cabelos

com os lábios húmidos

na ponta dos dedos.

 

À luz nua

recolhe-me  e bebe a poção

da eternidade.

Enfeitiça-te.

domingo, 19 de julho de 2015

Não fiques assim


 
Foto: João Bordalo Malta
 
Respondo à convocatória

sem voz nem oratória.

O que é certo

é que tudo deve ser

do agrado

de quem usa o servicinho.

Não deve esquecer, contudo,

o valor acrescentado.

 

Estou cansada.

Sento-me no tronco viril.

Espero que tudo cresça de raiz.

Fico à sombra.

Não sei o que te fiz.

 

 

Na noite mais negra que breu

trazes o dia nas mãos

ilumina o caminho

que trilhas no corpo

que é meu.

 

Estende-te sobre

o espelho dos sentidos.

Torna-te límpido e leve.

Terás o orgasmo que nunca

ninguém teve.

 

Enrolamo-nos no reverso da alma

com a inspiração da carne,

poesia sem metáforas.

Escorem os desejos transpirados

nos lençóis

em desalinho.

 

Seremos uma luz molhada

que vacila

sob a rosa molhada

que tocas.

 

 

Conhecerás o prazer de voltar

a uma cama acesa

de fogo não apagado,

claro está.

Apesar do valor acrescido,

tudo é negociado.

Não fiques assim!

domingo, 12 de julho de 2015

Escrevo-te


Foto: MR Jagad
 
Vou deitar

o corpo quente

e cobri-lo com as folhas pautadas

de insónia.

 

Palavras luxuriantes povoam a mente

e fecundam os sentidos

despertos.

Amanhecem as fraquezas carnais.

Não me vês, é certo.

 

Em biombos (in)discretos

a luz coada está retida.

Cai a noite na cidade.

O sonho levanta-se.

 

Cosi os meus lábios

com linhas impressas de desejo

para andar pelos telhados

e espreitar-te.

 

Desnuda-me invisível.

 

Abandono a linguagem

para te falar de mãos

que te envolvem o corpo

feito pó,

num abraço.

 

Sem consoantes,

deixo as vogais penduradas

na periferia

do teu ser adormecido.

 

Agarro-me às pedras mudas

que condensam

o grito nascente.

São os versos de água-de-rosas

que te dou a beber.

 

Adormeço em ti.

domingo, 5 de julho de 2015

Magia

 
Foto: Hsfotografie
 
Maquilho-me de fantasia colorida.
Está atento aos sinais.
Parto rumo ao limbo,
sem gargalhadas.
Dispo-me de vestes douradas.
 
Reflito o corpo no espelho
e imprimo-lhe
a cor do desejo.
 
Sem ter subido
todos os degraus,
tirei o tempo do pulso
e pousei nos teus lábios
sem órbita.
 
Se pisares a Lua
descobre-a cheia
pois assim a terás inteira
 
Os ais presos na garganta
são soltos
no libertar do corpo.
 
Aspiro os estilhados do que reflete
e rasgo as sombras.
Sem espelhos
a tua imagem
torna-se corpórea.
 
Com as mãos adelgaçadas
 e agitadas
na calma noite,
entraste dentro de mim.
 
Ofereço-te a rosa dourada
com o perfume liquido
do sorriso das estrelas.