domingo, 18 de janeiro de 2015

A Queda


 
Foto: Bezheviy
 
 
Das pedras da rua,

a Palavra

que é lapidar,

ergo o teu corpo

que irei habitar.

 

Se és uma poesia

que surgirá dos poros

frios do Silêncio,

aconchega-a no cobertor

da tua voz.

Não pode constipar.

Haverá sempre uma história

para contar

e para isso,

não é preciso rimar.

 

Chegas antes de te ver,

nas palavras

presas no calor da mão,

agarradas a linhas (in)sensatas

de te querer.

 

Respiras na página

quando desfaço

o abecedário

e lhe dou um novo sentido.

 

Há um problema:

se não souberes ler,

nunca irás compreender

o que te quero dizer.

Diz-se que a Poesia

está escrita em linhas

silenciosas,

ocultas.

É preciso ler nas entrelinhas.

 

Levanta-te.

Vai descendo as escadas,

versos com figuras de estilo,

versos sem comparação.

Vão fazer-te escorregar

no abismo da imaginação.

Agarra-te ao corrimão.

 

Assim vais de asas fechadas

cair no sentido vertical.

Irei amparar-te a queda

num enlace horizontal.

 

E no final, caíste?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Perfeitamente Imperfeito


 

Foto: Regard Sur Image (página do Facebook)
 
 
É preciso Tempo.

Quando o ponteiro rodopia no mostrador

não sabemos quando será a hora certa

para ver o Amor.

Em qualquer segundo nos encontraremos.

Nunca esperarás horas por Ele.

 

Se o Amor é cego,

devemos ser preventivos.

Usa óculos.

Ajudará a ter um foco mais objetivo.

 

Corro o risco

de tropeçar.

Segura-me.

Posso cair nos teus braços

grafitados de Amor.

Não te apagues,

por favor.

 

Não te digo o que desejo.

Gostaria.

É algo condicional.

Por esse motivo,

corro o risco de ir para a prisão

por querer mostrar-te o meu coração.

Sei que me irás denunciar

e serás testemunha

do meu aprisionar em ti.

 

Suspira no desmaio

do corpo

nos meus olhos.

Deixo-te focado

e a noite cai no céu da boca.

Abrigo-me debaixo da tua língua.

Fico louca.

 

Existias onde eu

 não estava.

Não achava possível.

No Amor acontece o impossível.

 

Quase me matas

pois o teu toque me tira a respiração.

Preciso do teu beijo

para oxigenar o coração.

Troquemos carbono.

 

No céu mais alto

deslizam as línguas

e fazemos uma sopa de letras.

Ninguém compreende

o que está traçado nos lábios.

 

Fumo.

Inalo o cheiro do teu corpo

que fica na nudez

que me ruboriza a tez.

Nem sei onde coloco as mãos

quando mergulho em ti.

 

Há a reação química

do orgasmo

quando não estás.

Tenho de possuir as Palavras

para ter o que não dás.

Torno-me volátil.

 

És água em mim.

Essencial mas,

 quando sobe a temperatura

expilo-te

pelos poros da pele.

É assim que consigo sentir-te.

 

Tudo isto é perfeitamente

normal

para quem é naturalmente

(im)perfeito.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Intromissão


 
Foto: Pour le plaisir des yeux (página do Facebook)
 
Desculpem.

Preciso de orientação.

Foi de passagem

que perdi a inspiração.

 

Rabisquei o papel com

palavras feias,

erradas,

ilegíveis,

esborratadas.

Até dá vontade de chorar.

Estou a brincar.

 

O pensamento vagueia

mas não me vou inspirar

na Lua Cheia.

Quero algo verdadeiro

e ela só me fala de mentiras.

Afinal ela é vazia.

Não mora lá ninguém.

 

Irritam-me as palavras

carnais.

Nada tentador.

Não posso agarrar

aquilo de que não sinto calor.

 

Não vou escrever sobre sonhos.

Não vou dormir.

Tenho um problema no olhar.

Apenas vejo ao perto.

O que esta longe não consigo alcançar.

Aproxima-te

para te ler melhor.

 

Deito-me a adivinhar

onde podes tropeçar.

Será que é neste verso

ou irás continuar a recitar- (me)?.

Quero ver se te consigo agarrar.

 

Não me quero deitar.

Detesto o que é paralelo.

Prefiro que sejas reto

e vás direto ao ponto.

Caso contrário,

nunca nos encontraremos.

 

Escondo as mãos

nos novelos

dos meus cabelos

e torno-me uma mulher despenteada.

Não fiquei bonita.

Apenas queria aquecer as mãos,

mais nada.

 

Crio estas imagens em silêncio

sobre a espuma das palavras

que me molham os pés.

Entre a Lua e a maré.

Navega em mim

para saberes como é.

 

Tapem os ouvidos.

Apetece-me gritar.

Estou a falar para as paredes,

entendes?

 

Desculpem a intromissão.

Vão ler poesia a sério.

Eu dou permissão.