sábado, 4 de outubro de 2014

Renasceste


 
 
O arco não fere as cordas vocais.

As melodias entram pela noite.

A ária é um suspiro.

Fecho as pálpebras

e tento ausentar o que atormenta.

É uma batalha perdida.

 

As Palavras estão na raiz do Medo.

São elas que brotam das pontas dos dedos.

Fico no Limbo.

Mantenho o caderno pautado

na gaveta guardado.

Não vai demorar muito

para o ter agarrado.

 

Formo corredores de Morte.

Os versos são um esqueleto

reduzido ao pó

acumulado na gaveta.

Sufoca-me esse respirar.

O tempo é relativo.

Parece que teima em parar.

 

Coloco os restos mortais

sobre a mesa.

Tento sem floreados,

encontrar o motivo da tristeza.

Partiste para outros olhares.

Deixaste o perfume

do passado

esculpido no papel amarrotado.

Rasurado.

 

 

Acordam as sombras.

Há algo vivo

que está comigo.

Acaricio o papel

como se fosse a tua pele.

Sou uma pétala de um malmequer

caída.

 

Recolho-me nas horas mortas.

Busco um Sorriso Nosso

nas tuas Palavras.

Renasceste em mim!

domingo, 28 de setembro de 2014

Espelho de Água


Fico no fundo

das escadas

olhando o espelho

que me desfaz

em infinito

pó.

Estilhaça-me.

 

Desperta a manha.

Corre o rio.

Olho esse espelho de água.

Sei que um sopro de ar

o fará vibrar.

Em linhas de água

escorro.

 

O Céu é impossível.

Não posso voar.

Apenas se me evaporar.

 

Não vou atrás de Palavras.

Corro na Terra

nos vales,

montes.

É essa palavra que me

prende à nascente.

 

Ficas com a boca

enredada

nas linhas de água,

versos meus.

Vais mais fundo.

Mergulhas.

 

Agita-se a luz sem querer.

Fico dentro das coisas.

Evaporo com o calor

do teu olhar.

Atravesso o portal

Temporal.

 

Soa o eco das profundezas.

Ouço o Silêncio dos Mortos.

Fico no profundo

espelho de água:

reflexo sem voz.

sábado, 20 de setembro de 2014

Dança comigo


 
Foto: King Douglas
 
 
Passo a passo

balanço o corpo.

Estendo um pouco

mais a mão.

Desço as alças do vestido.

Descalço-me

na nudez

da página,

palco meu.

Absorve as dores de seda.

Rodopio sem penas.

Sou eu!

 

Tiro vendas.

Cai o pano.

Escondo as palavras

certas.

Piso a linha.

No tom certo

escrevo  o poema

na pauta do peito.

 

Rodopio sozinha

ao som de uma melodia:

a 9ª Sinfonia.

Dedilho suspiros

nas cordas vocais.

São meras junções

de vogais.

O espelho espreita-me.

Sufoco no gemido

do teu pensamento

escondido.

 

Os cabelos caem nas costas.

Ouço o vento

a soluçar.

Suspendo-me na

poesia calada.

 

Não me digas palavras

que julgas eu não saber.

Basta abrir o dicionário

para as conhecer.

Apenas corta as asas

e dança comigo.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Fruto


 
Foto: Telma Perdigão
 
 
 
Caminho no quarto
obscuro
na procura tátil
da tua mudez.
 
Sei que entre nós
já nada há para falar!
 
Recolhes a fruta amadurecida
para ti apetecida.
 
Com as mãos inflamadas,
descascas o fruto devagar.
Deixas que mostre a sua essência:
pele suave, pura inocência.
 
Debruças-te sobre
o seu rosto
para sentir o gosto
nos teus lábios
traçados
pela língua
que te faz pronunciar
uma palavra sem voz:
beijo.
 
Percorres as linhas
do seu corpo
curvilíneo.
Procuras os espaços vazios
para saciar a sede.
Morde-o devagar.
Saboreia-o lentamente.
 
Para encontrares o prazer
tens de te perder.
 
Agora, fico em ti,
 (re) vestida do teu cheiro.
Procuro o sossego
na excitação entranhada
no que fica.
 
Encontras, assim, o fruto (nada)
proibido
que será sempre consumido
pela chama,
sem fogo,
de quem se ama.