domingo, 26 de julho de 2015

Enfeitiça-te


Foto: Anekceeb
 
Atravesso a brancura inocente

que virgem violo.

Acolhe-me o que é visível.

O sopro mágico

faz o vazio falar.

 

Ninguém pode salvar-me

do que pode matar-me.

 

Embala-me o som

do silêncio,

marés de palavras ecoadas

no espaço.

 

Parte-se o espelho.

Ficam estrelas cadentes

trituradas.

Acabou-se a magia.

 

Descobre o mistério da reflexão.

Vê abertamente por dentro

o que se oculta

pelo lado de fora.

 

Afasta as nuvens.

Torna-me transparente.

 

Mastigo o silêncio.

Engulo a palavra,

sopro de luz.

 

Sobe até à ponta dos cabelos

com os lábios húmidos

na ponta dos dedos.

 

À luz nua

recolhe-me  e bebe a poção

da eternidade.

Enfeitiça-te.

domingo, 19 de julho de 2015

Não fiques assim


 
Foto: João Bordalo Malta
 
Respondo à convocatória

sem voz nem oratória.

O que é certo

é que tudo deve ser

do agrado

de quem usa o servicinho.

Não deve esquecer, contudo,

o valor acrescentado.

 

Estou cansada.

Sento-me no tronco viril.

Espero que tudo cresça de raiz.

Fico à sombra.

Não sei o que te fiz.

 

 

Na noite mais negra que breu

trazes o dia nas mãos

ilumina o caminho

que trilhas no corpo

que é meu.

 

Estende-te sobre

o espelho dos sentidos.

Torna-te límpido e leve.

Terás o orgasmo que nunca

ninguém teve.

 

Enrolamo-nos no reverso da alma

com a inspiração da carne,

poesia sem metáforas.

Escorem os desejos transpirados

nos lençóis

em desalinho.

 

Seremos uma luz molhada

que vacila

sob a rosa molhada

que tocas.

 

 

Conhecerás o prazer de voltar

a uma cama acesa

de fogo não apagado,

claro está.

Apesar do valor acrescido,

tudo é negociado.

Não fiques assim!

domingo, 12 de julho de 2015

Escrevo-te


Foto: MR Jagad
 
Vou deitar

o corpo quente

e cobri-lo com as folhas pautadas

de insónia.

 

Palavras luxuriantes povoam a mente

e fecundam os sentidos

despertos.

Amanhecem as fraquezas carnais.

Não me vês, é certo.

 

Em biombos (in)discretos

a luz coada está retida.

Cai a noite na cidade.

O sonho levanta-se.

 

Cosi os meus lábios

com linhas impressas de desejo

para andar pelos telhados

e espreitar-te.

 

Desnuda-me invisível.

 

Abandono a linguagem

para te falar de mãos

que te envolvem o corpo

feito pó,

num abraço.

 

Sem consoantes,

deixo as vogais penduradas

na periferia

do teu ser adormecido.

 

Agarro-me às pedras mudas

que condensam

o grito nascente.

São os versos de água-de-rosas

que te dou a beber.

 

Adormeço em ti.

domingo, 5 de julho de 2015

Magia

 
Foto: Hsfotografie
 
Maquilho-me de fantasia colorida.
Está atento aos sinais.
Parto rumo ao limbo,
sem gargalhadas.
Dispo-me de vestes douradas.
 
Reflito o corpo no espelho
e imprimo-lhe
a cor do desejo.
 
Sem ter subido
todos os degraus,
tirei o tempo do pulso
e pousei nos teus lábios
sem órbita.
 
Se pisares a Lua
descobre-a cheia
pois assim a terás inteira
 
Os ais presos na garganta
são soltos
no libertar do corpo.
 
Aspiro os estilhados do que reflete
e rasgo as sombras.
Sem espelhos
a tua imagem
torna-se corpórea.
 
Com as mãos adelgaçadas
 e agitadas
na calma noite,
entraste dentro de mim.
 
Ofereço-te a rosa dourada
com o perfume liquido
do sorriso das estrelas.

domingo, 28 de junho de 2015

Do outro lado da janela


 
 
Canto o que a voz cala.

Estendo-te a asa

e faço de mim a tua casa.

A inspiração é tao carnal

que o que sobra é cadáver.

 

Nos lábios maduros

afloram palavras insípidas.

Cruas.

 

Entre os dentes

escapa o último gemido.

 

Comtempla tranquilo

a água que escorre entre as frinchas

das pedras frias  e nuas.

 

Perde-se o calor da pele

mas o delírio da palavra

aguça o sentido.

 

Armadilha a boca.

Morde o lábio

para sufocar o inexprimível.

Não fiques à janela.

Torna-te desobediente.

 

Amarrota.

Rasga.

Observa as margens.

 

No final terás o corpo desenhado

em lençóis de linho e

a rosa será desfolhada por inteiro.

domingo, 21 de junho de 2015

Ida e (Re)volta


Foto: A. Brito 

Partirei quando vir

o teu perfil como

caravela dourada

e a tua pele entranhada

de perfume que não há.

 

Partirei quando a terra

de nevoeiro

ficar saturada e conseguires

escrever-me ecos compassados

de silêncios.

 

Partirei na inexistência de mares

bocais

nunca antes navegados.

 

Mas haverá sempre ida e uma (re)volta!

 

Regressarei na barca da estrofe

com remos de

versos

canelados e apimentados

em sentido proibido.

 

Regressarei quando caírem

as primeiras sílabas

na espuma branca

do mar de poesia.

 

Regressarei quando me vires

além do poema

e me tornares voz

na corda (vocal)

onde me fazes baloiçar.

 

Vestidos de fogo,

iremos enxugar as palavras

naufragadas

e guardadas em gavetas orvalhadas.

 

No regresso abriremos

essas arcas proibidas

cobertas pela verdura

dos meus olhos.

 

Regressarei morta por

despir e por amar.

 

Apenas para ti

abrirei a rosa cálida,

plena e húmida

que trago.

 

Fundir-me-ei contigo

quando recolheres a luz

que imana do meu corpo.

 

Abrirei as comportas

do peito

e dos nossos lábios entreabertos

deixaremos partir

a língua com o pecado

a bordo.