domingo, 12 de março de 2017

Espaço





Foto: Rosário Pereira

Ando sempre nas alturas.

Por isso,

não te chego aos calcanhares.

Quase subo pelas paredes

com as pernas cruzadas.



Toma o meu corpo.

Tem um cuidado intensivo

com ele.



Na boca, as palavras

trazem razão

mas depõem contra

o coração.



Os verbos irregulares

trazem ações imprevisíveis

dentro de mim.



A urgência dos olhos,

a mensagem nos lábios

que traz a palavra indecente,

como se entrasses

pela minha roupa a dentro.





E o coração bate sob a blusa

ardente,

sem saber bem o que sente.



Estendo as pernas

e aguardo o toque

da origem do Mundo.



Um espaço para permanecer.


domingo, 5 de março de 2017

A metáfora






Foto: Tony Schuller


“Tenho pena de ti”.

Estou com a pena suspensa.

Prestes a ser condenada

Sem ainda ter feito nada.

Uma lágrima de crocodilo

no canto do olho.

Não escrevo mais

para não abater

mais árvores.



Não digas que adoras

os meus olhos.

São apenas dois globos oculares

com uma irís colorida.



Não desejes o beijo.

São apenas trocas de fluidos

salivares.

Não os compares ao mar.

Ele é imenso mas não

mata a sede.



O coração não tem sentimentos.

É apenas um músculo

que bate ao ritmo

da tua massa cinzenta.



Nunca me apaixonarei

à primeira vista.

É bonito mas eu tenho duas.

Eu não gosto de mentiras.



O poema ensina

a cair.

Mantem-te firme.

Eu já estou com

os cabelos em pé.



No final,

a metáfora

é o véu do que sentes.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Guarda-te



Foto: Paolo Lazzarotti


Frio,

trago-te no bolso.

As pernas não me levam

a lugar algum.



O cloreto de sódio

armazeno-o nos olhos,

se o quiseres analisar.



Num movimento suicida,

leva-me para a cama

para me roubares

as roupas, o gesto, o toque.



Guarda tudo no cofre da cama.

No oceano da boca,

fica submerso o beijo

que morre na língua.



Há a cadência líquida que escapa.



Enterra-te bem

nas entranhas carnais,

depois de me autopsiares.



É o segundo certo

em que te guardas em mim.




sábado, 18 de fevereiro de 2017

Corpo




Foto: David Ben Haim

O meu vício

é atirar-me para cima de ti

como se fosses um precipício.

Gosto de queda livre.



Beija-me para encontrares o céu.

Ele está na Terra.

Assim já podes voar

sem levantares os pés do chão.



Não percas o gesto

sentido,

se vires o corpo

despido.



Afinal,

Um cabide com roupa

é um corpo sem

Alma.



Segura-me na mão.

Morde-me o pulso.

Vai até ao ombro.

Desliza até ao pescoço:

é aí que passa a guilhotina.

Posso perder a cabeça.



Sabes,

escondo-me atrás

de coisas simples:

roupa descartável.



Nada disto é mentira.

Quem vos escreve

é um corpo que respira.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pequenina




Foto: Axel L.


A nudez do corpo

é uma ideia vaga e solta.

Bebo o teu hálito

e uma ilha surge.



Pousas os lábios no peito

e nascem estrelas nuas.

Eu sinto-me pequenina.



No plano somos

pontos coincidentes

e alongamo-nos infinitamente,

sem paralelismos.



Gostamos do que é perpendicular

para nos podermos encontrar

em qualquer lugar.



Os abraços são bons,

dependendo do ângulo.

É bom o que é agudo

 e isso não é grave.

Apenas mais apertadinho.



Queres aumentar a intensidade?

Vamos dar uma volta

pois isso será giro,

para depois rasarmos tudo

entre quatro paredes.



Mas eu sou pequenina

para dormir

entre os teus braços.

Ponto.




domingo, 29 de janeiro de 2017

Anjo Fumegante




As tuas mãos dão asas

à roupa que

pousa no chão.



Beija-me a boca

como se cortasses os pulsos.

Devora-me o cabelo.



Esfrega-te no muro

areado de cimento

e deixa a tua carne.



Extinguir-te.

Tornar-me invisível

ao tempo.



Forças as entranhas

escancaradas.

O leite que te sobe

à cabeça,

pulsará dentro de mim.



Há camas sem sono.

A terra agarra-te.



Escondo os seios

no teu corpo.

Já não há lençóis:

apenas a ternura amarrotada

que te passa

a ferro pelos  dedos.



Perfil.

Silhueta.

Anjo fumegante.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Diversão de morte




Foto: Kristian Liebrand


Apanhei o cabelo.

Não gosto de ter nada

à frente dos olhos.

Gosto de ti.



Sabias que as pessoas

são esqueletos cobertos de pele?

Mas eu não quero

que vejam o meu.

Depois cobiçam a minha existência

e dizem que sou pele e osso.

E eu, ouvir isso,
não posso.



Sabias que a pele tem muitos poros?

Há muitos buracos por onde podes

entrar e fazer

a minha pele respirar.

A terra é fria

como a cova

que o corpo provoca,

quando me empurras para lá.



Sabias que podes conservar-me?

Podes colocar-me no congelador.

Não podes tocar-me.

Sou casta e o teu calor

desconstrói-me.



Sabias que a língua

é a nossa pátria?

Então vou colocar a minha

na tua boca.

Está bem! Chama-me louca.

É lá a sua casa!



Depois de escrever,

irei morrer

de riso.

Vou guardar

o sorriso na mão,

um pequeno caixão.



Tudo para que faças o contrário:

o ressuscites,

quando deixares de

marcar no calendário.



Entretanto,

tenho esta diversão de morte.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Gostas do escuro?



Sou gulosa.

Gosto de sentir o sabor do desejo

na ponta dos dedos.

Para ir sempre

mais além,

na insuficiência

da minha existência.



O que queres não sei.

Deixo o corpo fora da roupa.

Se dizes que gostas de mim,

tens o mundo ao contrário.

Como açúcar quando escrevo,

por isso sou um doce.



Acordas-me com raiva

mas não me mordes.

Entre a saliva e a língua,

Será que podes

pôr-me a morder

o lábio?



Queria dizer tudo

para que desejasses
saber o resto.

Mas isso não interessa.

Quando descobrires o meu lado escondido,

dirás que não presto.



Eu não sou detergente

para lavar roupa suja.

Não poderás acompanhar-me

na diferença.

Sou a que vai pela verdura,

formosa mas pouco segura.



Apenas te pergunto:

gostas do escuro?

domingo, 8 de janeiro de 2017

A gata





Foto: Axel L.

Durmo debaixo da roupa.

Estou escondida.

Para que desperte,

tens de descobrir-me.

Despe-me.



Riscas a minha pele.

Fazes de mim a brasa

que a fogueira atrasa.



Acordo algemada nos teus braços

e tu ficas com a boca

no corpo.



Seguras o frio das mãos

e creio que ficarás

com uma constipação.



Deita-te dentro de mim.

Embala-me.



Nunca me reconhecerás

quando apagares

as tuas marcas

do meu peito.



Sempre que se ouve um gemido,

ele fica retido

no parágrafo silencioso.



Por isso,

quero ser gata

e ter várias vidas .

domingo, 1 de janeiro de 2017

Letra aberta




Foto: Poluyanenko Alexey

Nada do que está aqui

é inspirado.

Por isso,

pousa os teus dedos na pele

e escreve um poema arrepiado.



Não colocarei o pé na argola,

mas do meu vestidinho

irei soltar a roda.

Colocar um sapato baixinho

e espalhar o charme.



Não trago instruções.

Sei apenas ouvir

o bater dos corações.



Quero sentir o teu peito

minhas costas.

Solta o cheiro

do corpo descoberto.



 Deixas-me entre a espada

e a parede,

quando te encostas a mim.

É uma paixão sem saída.



Mordes-me os lábios

para me rasgares o hálito.
Soltas-me a boca.



Com a respiração ofegante

ao teu ouvido,

peço-te que me leves ao Paraíso

com tudo e coisa nenhuma.



Procuro na intimidade

do texto,

o orgasmo.



Quero a castidade

vestida de nudez.



Estando contigo,

 estou bem

como uma letra aberta.

sábado, 24 de dezembro de 2016

O fio e a navalha


Foto: Axel L.


Vejo-me outra

longe de mim.

Faço um rabo de cavalo

para que o corpo

fique descoberto.



Abro as portas

da residência

sem qualquer

resistência.



Quando menos me tocas,

mais me tens.



Esgueiro-me para a esquina.

Em volta da cintura

Lavra o incêndio

que crepita nos dedos.



Afogo a tua sede

depois de me encharcares.

Regresso casta.



A boca obedce

e o sabor se morde.



Há a fusão:

carne e calor.

Arromba-me para que nada reste.



Suspiro.

Imploro para que

sejas a navalha

e eu o fio.