sábado, 12 de novembro de 2016

Não me sinto cá




Não há claridade

que apague o obscuro

das pessoas

e das coisas.



Dizes, então,

que trago a luz do desejo

no olhar.

Por isso,

não me sinto cá.



E eu digo-te

que o verão

fica à esquerda do meu peito.

Leva-me, então,

por essa estação.



Não me sinto cá.



Há um solo dominado

por cardos,

roupa por todos os lados,

que é preciso lavrar.

E é nessa jornada,

quando o sol está a pique,

que me sinto

corar.



Não me sinto cá.



O solo tem no reverso

o passado

com cicatrizes e

segredos.



Entre a saliva

e o toque,

agarra-me pelos ombros

e murmura-me,

longe dos olhares alheios,

o que é indiscreto.



Não me sinto cá.



A certeza abandona-me.

Os teus dedos esgueiram-se

para lados incertos.

Enquanto a incerteza dura,

ardo na fogueira

e crepito como uma castanha.



Magusto-me.

Já não me sinto cá.

domingo, 6 de novembro de 2016

Grito de morte


 



Sou um cadáver frio.

Tenho muitas peles guardadas

no armário.



Alimento-me das

coisas do corpo

e o coração está morto.

Apenas lateja a saliva.

Parece que ainda estou viva.



As palavras ensanguentadas

jorram dos pulsos cortados

com o punhal de vento.

Tenho os dentes

chumbados

com os desejos inconscientes.

Estarão eles

 mais perto do céu.



Debaixo da pele

existo dentro

do gesto.



Quando cai a noite

no quarto,

há uma flor

que arde

e um perfume que

condensa o orgasmo

num só grito



Morrer devia ser assim.
Ser tudo. Por agora.

Apenas um grito

de morte.

sábado, 29 de outubro de 2016

A Finada




Já não há leitores.

Há nudez.

Há quem veja com as mãos;

quem leia com os dedos.

quem fale gestualmente.

As mãos andam nuas.



A poesia é coisa pouca.

Tenho as mãos vazias

na banalidade

da explosão líquida

que ocorre na ruína

do meu corpo.



Os poetas não servem para nada.

Há sempre um mau caminho

para percorrer.

Húmido.

Sem norte.

Deixa-te quente

e leva-te para a frente.





Os poetas deviam encher páginas.

Não deviam deixar vazios.

As pernas abertas

são pontas de estrelas

caídas no vazio

do quarto

crescente.



Que morra a prosa.

Se desejas algo,

estás morto por algo.

O desejo é poesia

que te leva do caixão

à cova.

Morreste?

Uma ova!



Não te escrevo

uma prosa.

Enterra-te.

Deixo-te a rosa.



Fina-se a poesia.

domingo, 23 de outubro de 2016

Urgência




Tenho o meu corpo solto

numa cama encalhada

e as unhas cravadas no algodão..



Há urgência.



Abres-(me)

a janela,

fazendo-a ranger de

arrepios.


Há urgência.



Dava-te um terço

para que pudesses desvendar

todos os mistérios.

Assim renovarias

não promessas,

mas certezas

nos ais a Deus.



Há urgência.



No hall celestial

cortas a carne com

intenso prazer erótico.

Rasgas virgindades.



Há urgência.



Há a fome antiga de água.

As árvores escondem-se

debaixo do chão.

Deixa-me regá-las

com urgência.

domingo, 16 de outubro de 2016

Posso fazer algo por ti?


 


A janela abre-se sobre a rua

e antes da nudez consomada

já me vês nua.



Posso fazer algo por ti?



Pisa-me que eu deixo

que faças as tuas marcas.

É uma batalha perdida.

Tenho a mão na faca.



Posso fazer algo por ti?



A carne dissolvida

na saliva.

Não o calo

e não dorme o falo.

Selo de joelhos a intimidade.



Posso fazer algo por ti?



 Respiro para que não doa.

Onde acaba a roupa e

começa a pele,

para pontos mais altos

e buracos mortíferos,

algo nos impele.



Posso fazer algo por ti?



Receio como tu

o mutismo.

Não quero agarrar estrelas cadentes.

Não tenho esse desejo.



Posso fazer algo por ti?



A poesia não tem grades

mas doem-me as costas.



Mas, posso fazer algo por ti?

domingo, 9 de outubro de 2016

Queres voar?




Foto: Ruslan Lobanov


Aterro na cama

e não sou um avião.

Deixo a minha consciência

debaixo do colchão.



O corpo olha-te

de lado,

vivo,

afogado na fantasia

diluída na pele.



Trazes a faca

para me esfaqueares.

Cortas-me a cabeça.

Não penso.

Cerra-me os lábios

Com a língua.

Leva as palavras duras

para a rua.

Atira o meu coração

pela janela.

Deixa lá o peso das estrelas.



Habita ,

mortal,

o reverso do que

há em mim.



Queres voar?


domingo, 2 de outubro de 2016

Um homem não é de ferro




Foto: José Lobato


O desejo de tocar-te

faz-me sentir fome.

Nada ocorreu.

Ninguém morreu.



Apenas uma substância

escorre

pela garganta funda.

Coagula-me o pensamento.

Deixo o corpo à solta.

Há a dor de ver a luz.



Ficamos afastados do chão.

Estamos em cima do colchão.

Há o apetite das coisas

que não se veem.



Ejaculo palavras inaudíveis

para os ausentes

mas sem erros.

Quero provocar-te um orgasmo

na descontração

do espaço (jamais)  vazio.



Escreve-me com a língua.

Depois coloca tudo num

parênteses:

o abraço à volta do corpo.



Elevas-te do fundo de mim.

Afinal um homem não

é de ferro.

domingo, 25 de setembro de 2016

Não há santos





Poderia escrever uma história

de encantar.

Infelizmente não tenho moral

para falar.

Seria um livro em branco.



Mando-vos à missa.

Digo-vos que comereis o corpo

para salvar a alma.



Calem-se mortais.

Não me chameis pecadora.

Levais uma hóstia!



Não vos mata a fome.

Não vos mata a sede.

Mata a vontade que

não é nada pouca

quando tudo se aponta à boca

e sentis vontade de tirar a roupa.



Vós mortais,

não bebereis o sangue

que pulsa nas veias.

Apenas pegareis em copos e

dividireis o desejo líquido a meias.



Deito-me sobre as tábuas

do meu colchão:

impecáveis lençóis de algodão.

Sei que eles não enganam e serão absolvidos

todos os suores da tentação.



Não vos preocupeis mortais,

pegarei no terço para rezar.

Talvez assim me possa salvar.



Mas parece que não há santos!

Fim da história.

sábado, 17 de setembro de 2016

Não sou anoréxica




Foto: Angela Vicedomini



Não sou anoréxica.

Não engulo tudo.

Apenas o que é preciso.



Deixa-me arrancar-te

a língua da boca.

Deixa-me cravar-te dez garras

no corpo.

Deixa-me gemer abaixo do umbigo

e deixar-te fugir

para dentro de mim

quando desapertares o nó

do desejo.



Dá-me um tronco

para me encostar.

Preciso de uma pausa

para saber a causa

de me desbravares

por dentro.



Deixa-me abraçar-te

o corpo com as pernas

e ficar com a boca a salivar.



Afoga-me em água de rosas

das planícies

invioláveis.

Deixa-me morrer

na vontade.



Não preciso de amor

para me sentir leve.

Não preciso de fazer dieta.



Não preciso de amor

para respirar.

Dizem que com ele ficamos

com falta de ar.



Não sou anoréxica

De sentimentos.

Sou uma obesa de

desejos proibidos.

sábado, 10 de setembro de 2016

Alerta




Não gosto do escuro,

por isso,

recuso fixar o olhar

na chávena do café.

O escuro queima.



Abre-se a porta dos fundos

para poderes entrar.



A noite é uma criança.

Tens de brincar.

São precisos corpos.

Vamos às escondidas

jogar?



Há sempre roupa a mais

a cobrir o céu.



O segredo é o incêndio.

Arde em silêncio.

Encontro-me dentro

do teu pensamento.



Necessito respirar

o perfume líquido das rosas

brancas

que invade os lábios.



Ainda não respirei.

Cortei-me.

Fiz o sangue jorrar.



O poema faz-se

de sangue e carne.



Alerta:

Ser poeta é um ofício

que pode colocar

a vida em risco.

sábado, 3 de setembro de 2016

Post Scriptum





Foto: Joana Lora


P.S. Começa a viver pelo final.

O que interessa é o que escreverei depois.

Não agora.



Lê esta carta escrita para ninguém.

Eu não sei nada de nada.

Tenho um desejo doido

de gritar

no quarto, na cozinha

ou na sala de estar.



Fora da porta

ocorrem terramotos

que remexem o que está soterrado.

Anda tudo desatento.

No final apenas os fantasmas

Morrerão de esgotamento.



Há o laço na raiz.

Sento-me no chão

e a saia escorrega.

Converso com o mendigo.

Nada lhe peço.

Ele dá-me um beijo mordido.



Na terra virgem

há segredos que se escondem

nas lagoas dos olhos.



Molho os pés no mar.

Vem a onda.

Abro o corpo

para a espuma branca.



O grito provoca o espasmo.

Não era de frio.

Era apenas um orgasmo:

uma fugaz eternidade.



P.S.  O melhor vem sempre no fim.