domingo, 7 de agosto de 2016

Chama-me



Foto: Alexander Perischepov

Sou feita de cera.
Derreto sem amor.
O fogo existe
com  gestos
e sem palavras.

Enroupo-me de mulher.
Em lenta combustão,
as pernas mantêm-se
presas em lençóis de estrelas.

Não atiro beijos.
Não corre nenhuma brisa.
Consegues apanhá-los?

Passo por gatos.
Visto-me de sol.
Atravesso a rua.
Vês-me nua.

Queres ir à fonte?
Chama-me
em chama.

domingo, 31 de julho de 2016

A fome continua



Deixa-se a pele

pendurada no cabide.

Esvazia-se o corpo.

Reza-se a missa

de corpo presente.



Enterram-se os corpos

nas valas comuns:

lençóis areados.



Ficam as memórias:

perfil sem voz

atrás do espelho.

Capturadas a cores.

Vivas no flash.



A morte ganha vida.

Reduzimos a distância

no encontro dos corpos:

desvio e embate

para o orgasmo.



No final,

deixaste o melhor de ti.

Vieste-(te).



Nada é negativo.

As pessoas morrem

e a fome continua.

sábado, 23 de julho de 2016

Será que cabes?




Foto: Marta Bevacqua



Abro a boca.

Não suplico.

Humedeço os lábios.

Coloco a língua de fora.

Apenas humidade salivar.



Verifico a bolsa.

Tem lá o dicionário.

As palavras não têm valor algum.

Coloco a mão no bolso.

Está vazio.



O verso está em queda.

Está tudo em fundo perdido.

Tens queda para o abismo?



Não posso usar palavras caras

porque não as posso comprar.

Uso palavras simples.

Singulares.



É preciso dar-lhes corda

(vocal)

para as fazer render.

Mesmo sem rima,

ficam no ouvido.

Não preciso de gastar papel.



Deito-me sobre tábuas

para que contemples na nudez

o que não sabes.

Encontra um cantinho na estrofe.



Será que cabes?

domingo, 17 de julho de 2016

No canto




 Foto: Plfoto

Esbatida nos limites

impostos por uma louca.

Invisível a quem olha.

No escuro tudo é pardo.



Libertas o meu ser

do espelho.

No quarto do fundo

fico recortada

na parede.

Nua.

A preto e branco.



No encontro de duas paredes,

na aresta perfeita,

tens o meu corpo aberto.

Estou no canto.



Amadurece o desejo

e eu caio

no eco do grito

dos lábios cerrados

quando é no canto dos lábios

que nasce o sorriso.



O canto das sereias.



A humidade escorre

do espelho.

Limpo-o.



Queres pôr-me a um canto,

de novo?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Sê fogo




Foto: Imaginatio Sensi

Nasceste selvagem.

Não és de ninguém.

Nunca estiveste só:

as sombras dividiram

o teu corpo em dois.



Rasgaste as entranhas alheias.

Apenas ossos.

Sem carne.

Sempre sofreste de falta de tato.

Mantinhas

o ranger de dentes.



Ninguém chegou até ti.

Deixaste rugidos interditos.



Hoje!

Coloca as garras de fora

sem submissões.



Pisa o risco

sem ser isco.

Não chegues a roupa

ao pêlo.

Deixa-a cair.



Muda de pele.

Incendeia o círculo

de feras.

Não sejas selvagem.

Sê fogo.

domingo, 3 de julho de 2016

Sem nós




Foto: Raymond Elstad

Despes-me a camisa

e é assim que a noite

cai.



Navegamos sem velas.

Apagamos as luzes.

Percorremos o nó:

uma milha de distância.

Somos mais velozes

 que o som.



Desaperto-te o nó da gravata

sem nó na garganta

mas sem nada

para falar.



Entre a  parede e o corpo

enterras a espada.

Contorço-me sem saber

para onde escapar.



Não me deixas fugir.

Apenas sorris.

Queres ouvir-me gritar.

Da incisão,

descobres a nascente.



A fuga orgásmica

é a única saída.

Um homicídio lento

onde me rendo

sem nós.

domingo, 26 de junho de 2016

Não há Deus



Foto: Angela Vicedomini


Traz a faca.

Inspira-te na carne

mas não leves

a pele e o osso.



É preciso pele

nua e crua.

É o alinhamento

curvilíneo das coisas.



Alguém te trará

o lume

para cozinhares.



Fica com os olhos

presos no corpo.

Não os percas!



Descobre as luas.

Pisa o espaço.

Colhe o néctar

das estrelas.



Terás uma mulher

com o desejo na boca

e a loucura à solta

no corpo.



Brota da terra,

queimada.

Ergue-se da treva

sem juízo,

mal comportada.

Expulsa do Paraíso.



Ela estende a mão

e toca no céu.

Deita-se na cama

e chega a todo o lado.



Na harmonia das vogais

não há Deus

que vos valha!

domingo, 19 de junho de 2016

Vem sentar-te comigo




Vem sentar-te comigo no CCB.

Não sou dama.

Não sou rainha.

As cartas que deixo

não são de amor.

Apenas gosto de jogar.

Não tenho ouro

para te entregar.



Vem sentar-te comigo no CCB.

A cama é a mesma.

Apenas tem lençóis lavados

dos corpos suados.

Na frincha da porta

há gritos de fogo

diluídos.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Não sei as horas.

Gosto mais de quartos

embora deixe as meias

pelo chão,

mãos alheias que piso.

Preciso apenas de segundos

para te conhecer ao minuto.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Mesmo de vestido,

seja ele comprido,

adivinhas as curvas da vontade

na nudez hibernada.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Deixo as coxas apertadas

Para que não deixe escapar nada.

Consomes a minha timidez

e deixo as portas se abram de vez.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Cultiva-te.

Tudo recomeça.

Sem pressa.

Não falaremos latim.

Dizem que é uma língua morta.

Aqui não será assim.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Prometo deixar-te tocar-me nas costas

e deixar-te dançar com

a nudez que não está à mostra.



Vem sentar-te comigo no CCB.

domingo, 12 de junho de 2016

O Enterro




Foto: Ruslan Lobanov

São 3 da tarde.
Vamos a um enterro.
 
Despe a tua melhor roupa.
Aquela que assenta
que nem uma luva
no meio do chão.
Deves ir apresentável.
 
Aviso-te
que o enterro é no Sul.
Assim já sabes que podemos
perder o Norte.
 
Atravessamos a casa da morte.
Abrimos a noite.
 
Nestes casos nunca se sabe
como devemos estar.
Julgo que apenas
haverá posições a adotar:
De pé a olhar;
Sentada para sentir;
Ajoelhada para venerar.
 
Sentes o sabor
do perfume
líquido das rosas
na boca.
 
Soluço entre as pernas.
Agitas as águas.
Depois de semear ventos,
colhes tempestades.
Não contenho as lágrimas
e elas escorrem nas palmas
das tuas mãos.
 
Caio de joelhos.
Fico suja de terra.
Já nada tenho para vestir.
 
Pela boca morre o pexe
e eu digo que é pela boca
que nascem as árvores
de tronco viril.
 
Ecoa o cântico orgásmico
pelas paredes dos corpos.
 
Sinto o fogo a consumir-me
até me cremar.
Enterras-te comigo
dentro de mim.
 
Ninguém sabe
que morremos.
Ressuscitamos ao terceiro dia.
 
O sinal é o cântico que ecoou aqui.
Ouviste?

sábado, 4 de junho de 2016

Contra todos os riscos



Foto: Stefan Gesell

Está tudo fora.
Eu envidraçada.
 
Não há aves no céu.
Estão presas do outro lado
da janela.
Roubei-lhes a melodia
e aprisionei-as
nos ouvidos.
 
Embalei-me nas notas
e compassos.
Esqueci a fome.
 
Fiz ponto de embraiagem.
Fugi de mim.
Não é possível
suportar a minha alma gémea.
 
Procurei o ponto de incisão.
Cheguei ao ponto de saturação.
Cortei os veios.
Nada fiz para reter o interior.
É o que conta.
 
Lubrifiquei o caminho.
O destino é o lugar
onde o medo não cabe.
 
 
(Re)nasci no desejo
das horas mortas.
 
Agora,
guarda para ti o que viste
aqui.
É uma loucura.
São memórias arriscadas.
 
Por isso,
segura-te
contra todos os riscos.