sábado, 11 de outubro de 2014

Brincando com as Palavras



   Foto: Gubenko Ruth
 
 
 
Pessoalmente me dirijo a ti

dizendo-te o que faço e

verbalizo:

Amo-te

Desejo-te.

Quero-te.

 

Deito a sombra no chão:

uma folha de papelão.

Faço de conta que és meu.

É determinante.

Possessivo, eu sei.

É isso que fica demonstrado nesta frase.

 

Não me ordenes nada.

Não vou escrever nada.

Não és imperativo para mim.

Não me faças declarações.

Não me perguntes nada.

Não sei!

 

Serei simples.

Dir-te-ei sim ou não

para mudar a forma do que desejas ouvir.

É um monossílabo.

Pequena palavra.

Grande poder.

 

Se para tudo fazer sentido

é preciso um sinal,

sou incoerente.

Não sou sinaleira.

Nem me elevo aos outros.

Não sou maiúscula.

 

Alinho as palavras

mas muitas delas são comuns.

Têm a sua personalidade própria.

A sua presença pode  

englobar o mundo inteiro.

A gente de um povo.

 

Não uso palavras certas

para me fazer ouvir.

Todas têm uma parte

tónica.

São fortes:

graves,

agudas, como Amor,

esdrúxulas, até.

 

Não sou uma figura de estilo.

Sou um pássaro negro

pousado nas margens

de um paraíso secreto
 
onde brinco com as palavras.

sábado, 4 de outubro de 2014

Renasceste


 
 
O arco não fere as cordas vocais.

As melodias entram pela noite.

A ária é um suspiro.

Fecho as pálpebras

e tento ausentar o que atormenta.

É uma batalha perdida.

 

As Palavras estão na raiz do Medo.

São elas que brotam das pontas dos dedos.

Fico no Limbo.

Mantenho o caderno pautado

na gaveta guardado.

Não vai demorar muito

para o ter agarrado.

 

Formo corredores de Morte.

Os versos são um esqueleto

reduzido ao pó

acumulado na gaveta.

Sufoca-me esse respirar.

O tempo é relativo.

Parece que teima em parar.

 

Coloco os restos mortais

sobre a mesa.

Tento sem floreados,

encontrar o motivo da tristeza.

Partiste para outros olhares.

Deixaste o perfume

do passado

esculpido no papel amarrotado.

Rasurado.

 

 

Acordam as sombras.

Há algo vivo

que está comigo.

Acaricio o papel

como se fosse a tua pele.

Sou uma pétala de um malmequer

caída.

 

Recolho-me nas horas mortas.

Busco um Sorriso Nosso

nas tuas Palavras.

Renasceste em mim!

domingo, 28 de setembro de 2014

Espelho de Água


Fico no fundo

das escadas

olhando o espelho

que me desfaz

em infinito

pó.

Estilhaça-me.

 

Desperta a manha.

Corre o rio.

Olho esse espelho de água.

Sei que um sopro de ar

o fará vibrar.

Em linhas de água

escorro.

 

O Céu é impossível.

Não posso voar.

Apenas se me evaporar.

 

Não vou atrás de Palavras.

Corro na Terra

nos vales,

montes.

É essa palavra que me

prende à nascente.

 

Ficas com a boca

enredada

nas linhas de água,

versos meus.

Vais mais fundo.

Mergulhas.

 

Agita-se a luz sem querer.

Fico dentro das coisas.

Evaporo com o calor

do teu olhar.

Atravesso o portal

Temporal.

 

Soa o eco das profundezas.

Ouço o Silêncio dos Mortos.

Fico no profundo

espelho de água:

reflexo sem voz.

sábado, 20 de setembro de 2014

Dança comigo


 
Foto: King Douglas
 
 
Passo a passo

balanço o corpo.

Estendo um pouco

mais a mão.

Desço as alças do vestido.

Descalço-me

na nudez

da página,

palco meu.

Absorve as dores de seda.

Rodopio sem penas.

Sou eu!

 

Tiro vendas.

Cai o pano.

Escondo as palavras

certas.

Piso a linha.

No tom certo

escrevo  o poema

na pauta do peito.

 

Rodopio sozinha

ao som de uma melodia:

a 9ª Sinfonia.

Dedilho suspiros

nas cordas vocais.

São meras junções

de vogais.

O espelho espreita-me.

Sufoco no gemido

do teu pensamento

escondido.

 

Os cabelos caem nas costas.

Ouço o vento

a soluçar.

Suspendo-me na

poesia calada.

 

Não me digas palavras

que julgas eu não saber.

Basta abrir o dicionário

para as conhecer.

Apenas corta as asas

e dança comigo.