domingo, 26 de junho de 2016

Não há Deus



Foto: Angela Vicedomini


Traz a faca.

Inspira-te na carne

mas não leves

a pele e o osso.



É preciso pele

nua e crua.

É o alinhamento

curvilíneo das coisas.



Alguém te trará

o lume

para cozinhares.



Fica com os olhos

presos no corpo.

Não os percas!



Descobre as luas.

Pisa o espaço.

Colhe o néctar

das estrelas.



Terás uma mulher

com o desejo na boca

e a loucura à solta

no corpo.



Brota da terra,

queimada.

Ergue-se da treva

sem juízo,

mal comportada.

Expulsa do Paraíso.



Ela estende a mão

e toca no céu.

Deita-se na cama

e chega a todo o lado.



Na harmonia das vogais

não há Deus

que vos valha!

domingo, 19 de junho de 2016

Vem sentar-te comigo




Vem sentar-te comigo no CCB.

Não sou dama.

Não sou rainha.

As cartas que deixo

não são de amor.

Apenas gosto de jogar.

Não tenho ouro

para te entregar.



Vem sentar-te comigo no CCB.

A cama é a mesma.

Apenas tem lençóis lavados

dos corpos suados.

Na frincha da porta

há gritos de fogo

diluídos.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Não sei as horas.

Gosto mais de quartos

embora deixe as meias

pelo chão,

mãos alheias que piso.

Preciso apenas de segundos

para te conhecer ao minuto.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Mesmo de vestido,

seja ele comprido,

adivinhas as curvas da vontade

na nudez hibernada.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Deixo as coxas apertadas

Para que não deixe escapar nada.

Consomes a minha timidez

e deixo as portas se abram de vez.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Cultiva-te.

Tudo recomeça.

Sem pressa.

Não falaremos latim.

Dizem que é uma língua morta.

Aqui não será assim.



Vem sentar-te comigo no CCB.

Prometo deixar-te tocar-me nas costas

e deixar-te dançar com

a nudez que não está à mostra.



Vem sentar-te comigo no CCB.

domingo, 12 de junho de 2016

O Enterro




Foto: Ruslan Lobanov

São 3 da tarde.
Vamos a um enterro.
 
Despe a tua melhor roupa.
Aquela que assenta
que nem uma luva
no meio do chão.
Deves ir apresentável.
 
Aviso-te
que o enterro é no Sul.
Assim já sabes que podemos
perder o Norte.
 
Atravessamos a casa da morte.
Abrimos a noite.
 
Nestes casos nunca se sabe
como devemos estar.
Julgo que apenas
haverá posições a adotar:
De pé a olhar;
Sentada para sentir;
Ajoelhada para venerar.
 
Sentes o sabor
do perfume
líquido das rosas
na boca.
 
Soluço entre as pernas.
Agitas as águas.
Depois de semear ventos,
colhes tempestades.
Não contenho as lágrimas
e elas escorrem nas palmas
das tuas mãos.
 
Caio de joelhos.
Fico suja de terra.
Já nada tenho para vestir.
 
Pela boca morre o pexe
e eu digo que é pela boca
que nascem as árvores
de tronco viril.
 
Ecoa o cântico orgásmico
pelas paredes dos corpos.
 
Sinto o fogo a consumir-me
até me cremar.
Enterras-te comigo
dentro de mim.
 
Ninguém sabe
que morremos.
Ressuscitamos ao terceiro dia.
 
O sinal é o cântico que ecoou aqui.
Ouviste?

sábado, 4 de junho de 2016

Contra todos os riscos



Foto: Stefan Gesell

Está tudo fora.
Eu envidraçada.
 
Não há aves no céu.
Estão presas do outro lado
da janela.
Roubei-lhes a melodia
e aprisionei-as
nos ouvidos.
 
Embalei-me nas notas
e compassos.
Esqueci a fome.
 
Fiz ponto de embraiagem.
Fugi de mim.
Não é possível
suportar a minha alma gémea.
 
Procurei o ponto de incisão.
Cheguei ao ponto de saturação.
Cortei os veios.
Nada fiz para reter o interior.
É o que conta.
 
Lubrifiquei o caminho.
O destino é o lugar
onde o medo não cabe.
 
 
(Re)nasci no desejo
das horas mortas.
 
Agora,
guarda para ti o que viste
aqui.
É uma loucura.
São memórias arriscadas.
 
Por isso,
segura-te
contra todos os riscos.

sábado, 28 de maio de 2016

Vens ou não dá?



Foto: Mila Lyumila



Falo-te do rio

que banha a rosa escondida

debaixo do vestido

que (não) trago .

Neste caso,

este poema não será

seco.

 

Resisto ao grito

amordaçado

entre as pernas

mas não dá.

 

Há a água cega

que escorre

para não alimentar

os lábios.

 

Fico mais nua.

Menos desarmada.

 

Acordam os sons adormecidos

no jardim

e na pausa mais funda

rompe a colcheia

da intimidade.

 

Existimos em 3 D:

em via livre ou

entre quatro paredes.

 

Uma alternativa

é arranjar um

quarto na hora.

Não demores muito.

Espero-te agora

de mim fora.

 

Temos um terço no quarto.

Rezamos?

Nesse caso,

só temos 5 minutos.

 

Vens ou não dá?

domingo, 22 de maio de 2016

Não adormeças



Este poema

Está cheio de nada.

 

Pensas como

sou por dentro

e eu digo-te que

a casa está vazia.

 

Tem apenas três quartos.

Um em cada hora.

Ora, não é muito.

É impar.

 

É difícil ficar.

É mais fácil vir(-me).

 

Se me visitares,

fica do lado de dentro.

Eu ver-te-ei

do lado de fora.

 

Pisarei as pedras

que vibrarão

com o calor do corpo.

Só me resta

ficar nua.

 

Arrebentaram-me as águas

nas mãos.

Nasce o fruto do desejo

construído no silêncio

do grito que dei.

 

Parti todos os espelhos

da casa pois há

reflexos inexplorados

na claridade das horas.

 

Por isso,

mesmo sem nada,

não adormeças.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Queres uma maçã?



Foto: Alexander Motylev

Não falo para as paredes

sobre as coisas do corpo.

Não sou feita de pedra.

Sou feita de carne e osso.

 

Irreconhecível.

Irresistível.

 

Deixaste-me sem direção

quando desfizeste

as curvas em contramão.

 

Nada disto é terreste.

Vamos navegar?

 

Mantivemos a língua

nas bocas.

Queres falar sobre isso?

 

Entreguei-te tudo

até ficar sem a roupa do corpo.

Fiquei pobre.

 

Subiu-se o mastro.

Içamos velas sem pano.

 

Navegamos em rio aberto

com suor,

sangue a pulsar,

sem lágrimas.

 

Íntima travessia

em que deslindas

todas as rotas.

 

Foram pedaços

de mau caminho

que se descobriram.

sem tormentas.

 

Apenas abraça (deiras),

não correntes.

Nelas navegamos nós.

 

Colho o fruto maduro

que me cai nos lábios.

 

Dá-me as tuas

mãos de liberdade.

 

Somos apenas fantasmas

em lençóis despidos,

ocultos pelo desejo

do fruto proibido.

 

Afinal,

o coração não é direito

pois ocupa o lado esquerdo

do peito.

 

Queres uma maçã?