sábado, 6 de setembro de 2014

Não me olhes!



 
Foto: J. Casielle
 
 
 
Não olhes para mim.

Ainda não acordei

a minha alma.

Não conheço pontualidades.

Apenas interrogações.

Está tudo suspenso

no meu Mar de escuridão.

 

Não me procures.

Estou refugiada atrás da porta

que guarda pessoas.

Dentro das gavetas

escondem-se Palavras sem voz.

Quando lhes tocamos

sabemos que não estamos sós.

 

Não contes o tempo para me ver.

O Tempo passa depressa

e eu faço horas

para não correr com Ele.

Faço compassos de silêncios

de Palavras insuportáveis.

 

Torço-as para fazer

jorrar a memória.

É assim que fotografo

e conto uma história.

 

Não te aproximes quando,

estendo as Palavras.

Elas mordem-me os lábios.

Ferem-me.

Caio em abismos distantes.

Há nevoeiro.

Ele nada tem.

Preciso de um astrolábio

para me orientar e encontrar a Paz.

Não sei se ela vem.

 

Não me sigas!

As Palavras desconhecidas

dão-me asas

e Norte.

Voo e parto para a Morte.

 

Crio atalhos

no mar movediço.

No corrupio

ouço o que não dizes.

 

Morro no Mar de Letras

que me beija.

Não olhes para mim.

Já não estou aqui.

domingo, 31 de agosto de 2014

Amanha


 
 
Pinta a janela.

Desenha-me

onde a noite começa.

Atravesso a penumbra.

 

A água rendilhada,

adormecida no fundo do copo

estremece com o sopro

do teu toque

contra o meu corpo.

 

Derramo o rendilhado

no chão armadilhado

pelo desejo de ti.

Reescreves-me poro por poro.

Fazes das palavras

Água.

Deixo-me diluir

na tua língua.

Percorres-me inteira

as veias

do meu ser.

 

Desperto submersa

nos timbres esquecidos.

Fico na fronteira da tua voz.

Estamos sós.

 

Inunda-me a ternura.

Ato-me nos teus dedos.

Perco o sentido do tato,

quando revelo o teu retrato

em olhares letrados

que tudo dizem.

 

Deixas o cheiro na raiz da pele.

Deixo os meus cabelos caídos,

doces lembranças

de um Amor

renovado.

 

Amanha um poema irá abraçar-te

e eu irei beijar-te

em Silêncio.

sábado, 23 de agosto de 2014

A Alvorada


 
Foto adaptada: Khimaereus
 
 
 
Afogo-me na Palavra

que se condensa no leito,

folha branca,

o verso imperfeito.

O que brota dos dedos

não é deste Mundo.

É algo que atravessa o Céu

e mergulha no Mar profundo.

 

À luz negra da noite,

mato a sede no leito sombrio

donde regressam coisas ocultas.

Sufoco nas Palavras

que não ouves.

Dou-me em Silêncio.

 

Ninguém me ama, é certo,

mas deixo-me ir na corrente

e sei que me encontrarei

no próximo cais

do teu olhar.

 

Respiro ausente.

mantenho-me oculta

no Mar de Palavras nuas

e frias

que esse mar salgado

revela quando deixo

o meu coração bordado

com linhas de água.

Assim corro para ti.

 

Na alvorada dos sentidos

sei que tudo se tornará

mais límpido.

domingo, 17 de agosto de 2014

O nosso Universo


 
Foto: Eduard Alt
 
 
Quando estou só

existe a voz calada no fundo.

Quebram-se as grades por dentro.

Abro a janela para o Mundo.

 

Lavo o corpo.

Dispo a alma.

Sento-me calma

com esperança que venhas.

O Sol vem de passagem

e a Lua revela-me na escuridão.

 

O poema brilha

lento,

sonolento

arrancado pela raiz

de dentro de mim,

quando grito o teu nome.

Tudo ressoa longe

no Espaço do Silêncio.

 

Surges e caímos

num buraco negro.

Entramos em outra dimensão.

Não sei se é real

ou pura ficção.

Quero apenas ver o teu brilho natural.

Não levantes os pés do chão.

 

As tuas palavras beijam-me

com a sua língua

que conheço.

Cada sílaba é uma luz

que preenche o vazio do céu.

Só lá estamos tu e eu.

 

Quero-te

de desejos despidos.

Quero que os sentidos

 tenhas acendido.

Não há limites no Tempo.

 
 
Iluminamos o verso.

Vou longe.

Fico perto.

Agarro a Lua.

Como as estrelas.

Prendo o teu beijo no espelho.

 

Olho para ti e vejo o Fado

que nas estrelas fica traçado.

 

Agora não faças perguntas.

Agora não te dou respostas.

Não quero que me decifres

num mapa astral.

Quero que nasças no meu poema

que é bidimensional

num único Universo:

o Nosso.