terça-feira, 17 de maio de 2016

Queres uma maçã?



Foto: Alexander Motylev

Não falo para as paredes

sobre as coisas do corpo.

Não sou feita de pedra.

Sou feita de carne e osso.

 

Irreconhecível.

Irresistível.

 

Deixaste-me sem direção

quando desfizeste

as curvas em contramão.

 

Nada disto é terreste.

Vamos navegar?

 

Mantivemos a língua

nas bocas.

Queres falar sobre isso?

 

Entreguei-te tudo

até ficar sem a roupa do corpo.

Fiquei pobre.

 

Subiu-se o mastro.

Içamos velas sem pano.

 

Navegamos em rio aberto

com suor,

sangue a pulsar,

sem lágrimas.

 

Íntima travessia

em que deslindas

todas as rotas.

 

Foram pedaços

de mau caminho

que se descobriram.

sem tormentas.

 

Apenas abraça (deiras),

não correntes.

Nelas navegamos nós.

 

Colho o fruto maduro

que me cai nos lábios.

 

Dá-me as tuas

mãos de liberdade.

 

Somos apenas fantasmas

em lençóis despidos,

ocultos pelo desejo

do fruto proibido.

 

Afinal,

o coração não é direito

pois ocupa o lado esquerdo

do peito.

 

Queres uma maçã?

sábado, 7 de maio de 2016

Ponto de colisão





Desembaraças o meu cabelo

de palavras.

Entranço o cabelo de desejos.

Sabias que os prendi

com elásticos?

Dizem que eles vêm e vão.

Estão bem apertadinhos

nos poros da pele

que aconchegas na palma da mão.

 

Empresto-te o beijo

que tenho selado nos lábios

e mato-te a vontade

só para poder enterrar-te

bem fundo no mar.

Sabes nadar?

 

Sabes,

ninguém nos conhece

e os sentidos emprestam

fogueiras aos olhos parados.

 

Viro-te as costas.

Sei que gostas

de ler

poemas ocultos.

 

Fico em ponto morto.

Mordo o lábio.

Aquece-me as mãos

pela calada.

Sem uma única palavra.

Apenas res(sus)pira.

 

É este o ponto de colisão.

Despistaste-te?

 

domingo, 1 de maio de 2016

O que fazes aqui?




O que fazes aqui?

Não te esperava tão cedo

e o tempo foge.

Corremos?

 

Poderia falar-te de uma mulher

que é uma viúva negra

bem casada com os passos que se dão.

Aceleramos nas retas

e nas curvas andamos sem travão.

 

Afinal anda tudo bem

mesmo a circular em contramão.

 

Ninguém se afasta.

Apenas sai do trilho.

Encosta na berma

para obter consolo.

 

Não há paredes

a quem me possa confessar.

Sou uma pecadora.

Não há volta a dar.

 

Assim não te falo de céu

pois ando na terra.

Não te falo de boias.

Não tenho salvação.

 

O que fazes aqui?

Não tens muito por onde navegar.

Gosto do que é impar

Por isso não me olho ao espelho

Para não me ver a dobrar.

 

O que fazes aqui?

Agora que estacionaste

no meu colo,

chegaste a um beco sem saída.

domingo, 24 de abril de 2016

Em caixa



Foto: Marta Bevacqua

Temos de acertar contas.

Será esse um bom plano.

 

Escondi-me dentro de uma caixa.

Dizem que aí há valor.

Dizer armário é vulgar.

E eu não sou arrumada.

 

Fiquei acorrentada.

Eram correntes de ar.

Era isso que me fazia

arrepiar.





Achei que devia ter classe.
Dar mais rendimento.
Valorizar o ativo tangível.
Seria um investimento.


 

Tirei uma fotografia.

Depois tive a revelação.

Não trazia nada nas costas.

Apenas a saia esticada

e as pernas à mostra.

 

Vou para  a rua

com palavras inúteis,

enquanto desafias as leis.

 

Quebras internamente

o que é bruto.

 

Estou em débito para contigo.

Abres a caixa para saldar,

ou consegues suportar? 

sábado, 16 de abril de 2016

Declaração




Pintura: Sónia Ferreira

Declaro,

claramente,

que a cama é um espaço vazio

onde há transmissão de sentires.

É aí que incide

o valor acrescentado,
mesmo que seja reduzido.

 

O que importa

é a existência.

O que imobilizas na terra

que pisas.

 

Sabes o que entregas.

Nunca sabes realmente

o que poderás receber.

 

É preciso preencher

os espaços periodicamente,

mesmo que haja reversões.

 

No final,

é uma questão de

acrescentar algo.

 

Declaro que tudo isto é verdade.

Nada é omitido.
Tens algo a acrescentar?

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Era uma vez



Foto: Chrissy Ray


Era uma vez

uma menina de caracóis

que gostava de comer chocolate.

 

Não valia um tostão furado.

Não vivia em Espanha

e a peseta já não existe.

Apenas euros e uns trocados.

 

É uma pessoa coletiva.

Traz em si outros eus.

Não é uma empresa.

Sou eu.

 

Coloca um valor acrescentado

a tudo o que faz.

Temos de ser inteiros

e ser capaz.

 

Há dívidas

para com as pessoas.

Resultará em insolvência?

Ninguém quer ter as Finanças por perto.

Toda a gente quer independência.

 

Não olhem para ela.

Gastam a sua imagem.

Poderá deduzir IVA?

Além disso, não é bela.

 

Depois foi só.

O silêncio das palavras.

O fosforo queimado.

A vela apagada.

 

Conto-te uma história.

Era uma vez….

29 vezes. 

domingo, 3 de abril de 2016

Fazer-te voar




Foto: Stanmarek
 

A luz da tua carne adormecida

dorme na escuridão

das minhas mãos fechadas.

 

É claro que a escuridão

Te permite ver tudo pardo.

A igualdade das coisas.

 

Trituro o sol

para que possas brilhar para mim.

 

Antes que te esqueça,

esqueço-me que já não te vejo.

 

Já não te mordo a boca.

Já não sei escrever nas paredes.

Mantenho o silêncio imóvel das fotos.

 

Agora,

arranco-te as asas

e sussurro-te ao ouvido

o que te faz voar.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Será que estás por aí?




Será que estás por aí?

 

A vida útil propaga-se

No prazo de validade.

Amortizamos o que é importante.

Muitos depreciam.

Entre a desvalorização e a utilização,

fica a distancia do abismo.

 

Será que estás por aí?

O amor é de cobre, sabias?

Cobre o que não vês

e vês apenas o que queres.

 

É tangível.

Imóvel.

Cobre o corpo de tudo.

Acorda o sonho

e dormes como uma pedra.

Talha-te.

 

Morremos.

A proximidade morde

a carne,

o gesto,

a palava.

 

Somos sepulturas abertas,

cheias de palavras escritas

na lápide.

 

Ficamos sempre com metade.

Metade do desconhecido.

Metade do gesto.

Metade da palavra.

Metade do silêncio.

 

Será que estás por aí?

Quero tudo

 com todas as metades.

Ou será que não sou digna de ti?
 

sábado, 19 de março de 2016

Levas-me?




Sê bruto.

Torna-te ilíquido.

Vem com tudo.

Retiro-te especificamente

um pouco da tua dependência.

Quero tornar-te mais liquido

para te fazer render.

Singular

 

Sei que para isso

tenho de te ver.

Mas nada do que faça será luminoso.

Não darei à luz.

Demora demasiado.

 

Preciso apenas de colocar as palavras online.

No final,

talvez estejamos casados,

numa união de facto

ou até separados.

Contudo haverá material coletável.

 

É dentro de ti que encontrarei

as estrelas,

um ativo intangível.

Por isso pergunto,

levas-me ao céu?