sábado, 19 de julho de 2014

Espero-te aqui


 
 
Descalço-me da Vida.

Descalço-me para a poesia.

Envergo palavras de seda

rendilhadas de pérolas

de fantasia.

Reflito a Alma

que emerge no espelho baço

da palavra escrita.

 

Sei que o Amor é sombrio.

É nocturno.

Acende-se, contudo, o rastilho.

Sinto tudo na planta

que emerge da flor

da pele.

 

Roubo-te.

Vamos dançar.

Ficas a meus pés

numa altura que não vi.

Não sei quem és.

Apenas te sorri.

 

Surges pela porta fora

da distância.

Vens inteiro,

quando te descubro

e mergulho a caneta no tinteiro

do teu Amor.

 

És mendigo.

Queres que esteja contigo.

Não me desnudo.

Não sei o que é o Amor,

digo-te.

Não te pedirei um beijo por favor.

 

Abaixo da razão,

a anatomia do beijo

prende-me ao chão.

Estou aqui.

Possuo a tua língua.

Falámos com antónimos.

Beijamos com sinónimos.

Usamos paradoxos:

ardemos no fogo

que não vemos.

Falamos de coisas que não entendemos.

E no fim colhes a flor de inverno.

 

Respiro o Céu.

Estou morta na terra.

Sabemos o que o desejo encerra,

agora.

(Re)visto-me a preto e branco

quando vais em contramão.

 

Fecha a porta.

Volta amanha.

Espero-te aqui.

sábado, 12 de julho de 2014

Não volto mais


Foto: Graça Loureiro
 
 
Vendo a minha alma
com Palavras cegas
de sentido.
Sacodes o meu corpo.
Fazes a minha cabeça
andar à roda.
Encosto-me.
Não quero embater
no teu mundo.
Vou-me embora!
 
Invento o que sou
por baixo da roupa.
As mãos atravessam a luz
e o que fica
é a noite vazia
que me agarra por fora
e me prende por dentro.
Vou-me embora!
 
Deito-me, sem dó,
por cima de uma caligrafia feia.
Escrevo mal, lamento.
Torno a minha boca vulnerável
com o sopro ligeiro
do respirar das Palavras.
Escondo-as nas nuvens
e solto-as do Céu.
Chove e molha o rosto teu.
Vou-me embora!
 
Abandono –me ao som
diurno dos passos.
Há paz no lugar da Solidão.
Há o Silêncio
quando se enterra o coração.
Vou-me embora!
 
A noite fica transfigurada.
Lentamente,
palavra a palavra,
chega a madrugada.
Lês-me e desvendas-me.
Compreendes as entrelinhas.
Nada há para esconder.
Vou-me embora!
 
Agarra-me.
Solta-me.
Fala-me.
Cala-me.
Escreve-me.
Apaga-me.
Termina.
Recomeça.
 
Vou-me embora.
Não volto mais.
E tu, ficas comigo?

sábado, 5 de julho de 2014

O Enforcamento


 
 
A folha branca arrefece

os astros de fogo

do espaço

escuro do coração.

 

A Solidão apaga-se

nas palavras graves

que me fazem

ecoar agudamente

dentro de grades

abertas em parágrafos desertos.

 

Silabo os versos

que escorrem como veneno

que fica contra a pele.

Sinto o sabor a fel

na minha boca.

 

Não falo contigo.

Não me ouves.

Escrevo-te.

De nada serve!

As Palavras são rígidas.

Apenas maleáveis com a voz.

 

O corpo torna-se

o rio que escorre lentamente

e contorna os desejos

que afasto com gestos fugitivos.

Fico imóvel,

mas deslizante.

 

Nada passa

pelo lado de fora,

quando me agarras

por dentro.

Abres-me.

Libertas o meu rosto

no espelho de água

onde me vês.

Suspiras para o céu

onde me crês.

 

Enforco-me, assim.

Perco a cabeça.

Tudo se reinicia.

Não fica indício

do enforcamento.

Este é o princípio

em ti,

meu amor.

sábado, 28 de junho de 2014

Amor permanente


Foto: Stanmarek
 
 
Nasces à noite,

quando me deslumbras

com sombras

caiadas na tela branca

da minha insónia.

 

Traço um esboço a carvão.

A preto e branco

delineio o que tolda

a Razão.

 

Vejo nascer

um sonho meu

na minha cabeça assombrada.

Vejo-te nitidamente.

 

Desenho o teu corpo.

Os meus dedos acariciam-te

e ficas em contraluz.

Fica estranho

quando apago as imperfeições.

 

Misturo as tintas

nada arbitrárias.

Estão na base.

São primárias.

Quentes.

Frias.

Surgem secundárias

quando quero algo novo.

 

Sinto-te vagamente

no correr da tinta

que cai nos meus dedos

e me acaricia a pele.

 

Sinto-te perto.

Sinto o teu cheiro.

Sei que me pertences.

Sei quem és.

Sei-te de cor.

 

Quando as tuas mãos ganham vida

e me percorrem,

para que nada se apague de mim,

tornamos o nosso Amor,

(de tinta),

permanente.