sábado, 24 de maio de 2014

Pauta do Amor

                            

Foto: Marta Ferreira
 
 
Esticas o braço.

Prolongo-te com a mão.

Estendo o arco.

Faço vibrar o que existe no teu corpo.

Fragmento-te.

 

Entre (a)braços

quebram-se os silêncios.

No contacto com o meu corpo

a poesia transforma-se em canção.

A melodia (que me deixa)

nua,

faz-me tua

com paixão.

 

Somos um.

Sem dó.

Fecho os olhos.

Sei onde estás.

Somos o encaixe perfeito

entre as pernas e o peito.

 

Dissolvo-me em viagens auditivas.

Cubro-me com as tuas

marcas sensitivas.

Perpetuo-me.

 

Ocultas-me atrás do véu

da paixão.

Fico atrás de ti.

Possuo-te lentamente.

Desvendo-te.

 

Sou a lua cheia.

Sou o centro do universo.

Apagas as palavras.

Falamos línguas no reverso

da boca.

 

Adivinho o teu desejo

que fica no espasmo

do que toco.

 

Fecho os olhos.

Perco a visão.

Resta-me apenas a audição.

Reescrevo o teu eco

num delírio enfeitiçado

nas pautas do Amor.

sábado, 17 de maio de 2014

A Química

 
 
Num tubo de ensaio

bem esterilizado

coloco o Amor que é um bom solvente.

Junto apenas o que a Alma sente.

Esta experiência irá servir para quem?

Nem eu sei bem.

 

Não se procura densidade.

Não se procura afastamento.

Tem de haver é Liberdade

para ter.

Temos em mãos um solvente

que dissolve quase tudo.

Até o que não se consegue ver.

 

Neste caso não usamos a ampulheta

para medir o tempo de reacção.

basta contar rapidamente

os batimentos do coração.

Sobe a temperatura.

É o ponto de ebulição.

Tem cuidado que está quente.

Pode haver uma explosão.

 

Misturamos bem o solvente e o soluto.

Obtemos a homogeneidade.

A pura solução.

Não se pode separar.

É o que diz a Lei da União.

Não há, dizem, regra sem exceção.

 

Quando a temperatura desce

e fica á temperatura ambiente,

tudo se destila.

Fica tudo separado novamente.

Resulta o absinto

no fundo do tubo.

retiro um pouco com a pipeta.

Não irei provar como a Julieta

ou como o Romeu.

Não me recordo quem o bebeu.

 

Fica a amostra.

Fica registado

que o Amor se não for bem cuidado

pode levar a um mau resultado.

No Amor basta ter um tubo de ensaio

e ir experimentando para não ficar Só.

Bem dizem que o Amor utiliza a Química

que existe em Nós.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Morre dentro de mim


 
 
Foto: João Bordalo Malta
 
 
 
Pé ante pé,

silenciosamente,

bates à porta.

Sobressaltas o meu corpo.

Sei que não estou morta.

 

Sentas-te ao piano

e tocas uma melodia.

Nada sei escrever.

Tu és apenas poesia.

Rodopio, meu amor,

por ti,

na simplicidade do que vês.

Apenas com um vestido

que encobre a nudez.

 

Lancetas-me a voz.

Soa o eco do silêncio.

Beijas-me a boca.

Não sei se é real ou se estou louca.

 

Não recolhas o que resta.

Pode ser que a noite não passe.

Prende-me.

Deixa-me lá no fundo.

Enterra-te e faz-me defunto.

Apenas dá-me um ultimo sopro.

Faz o que quiseres com o meu corpo.

Exaltarei no fim.

Corta-me a respiração.

 

Ficam as estrelas caídas

no meu cabelo apanhado.

São recolhidas no teu colo,

meu leitor apaixonado.

É assim que o poeta faz.

Permite-lhe partir com alguma Paz.

 

Rasgo-me.

A (rrisco) tudo o que sou.

São esses laços invisíveis

que deixam os sonhos visíveis.

 

Danço contigo.

Sei que o mundo é seguro,

quando me encontro no escuro

encostada à tua distância.

Sinto-te.

O Poema é o Fim.

Morre, agora, dentro de mim.

sábado, 3 de maio de 2014

Sono descansado



Estendo-me em lençóis

onde o espaço é vasto.

Quebro o meu coração de aço

que em linhas traço,

quando me deito nas ondas

que me elevam do chão.

 

Tudo se torna linear,

quando percorro cegamente

os desejos do teu pensar.

Liberta-me!

O fogo atinge as fronteiras.

O sangue pulsa nas veias.

O coração bate acelerado.

É esse o meu legado.

 

Não estou só.

Vivo neste mundo inventado.

Um mundo já fadado

habitado por outros poetas.

Eles caminham a meu lado.

 

A poesia que trago nos dedos

morre silenciosamente

na lembrança do verso escrito.

Agita-se a mente.

Prende-me os pulsos.

Fecho os olhos.

Guardo feições desconhecidas

e os sonhos caídos, como cabelos,

na minha almofada.

Inocentemente durmo descansada.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A Melodia do Silêncio


 

 
 
És um espelho de água

onde gosto de me banhar.

Estendo a mão.

Não encontro bolas de sabão.

Apenas bolas de ar.

 

A água escorre pelos cantos da tua boca.

Docemente a levo aos lábios.

Tudo inunda dentro de Nós.

Tornamo-nos canais comunicantes

apenas com duas variantes:

Eu e Tu.

 

Desfaço o teu sorriso

e caem estrelas.

Admiro-as.

Gosto de vê-las.

Olho para os sinais do céu.

Quando me olhas,

és meu.

 

O vento acaricia as colinas.

Dá-se a desfolhada.

Cai a folha e deixas algo de ti.

Não sei, nesse momento,

se fico ou se parti.

Ficamos ligados num abraço forte.

Perco o rumo.

Perdes o norte.

 

Erro nas curvas do teu olhar,

Indefesa.

Há explosões no meu corpo,

não sei se vivo ou se morto.

Vou pousar na Lua

Cheia de nada palpável.

Afinal, estou nua.

 

A luz rompe da Alma

quando alguém diz que ama.

São trilhos que o Amor deixa traçados

para os pedidos e para os achados.

Dessa viagem guardo as melodias do Silêncio.