domingo, 14 de fevereiro de 2016

É ridículo




Tenho o teu silêncio

preso na chama(da)

caída no meu ouvido.

Nunca te liguei.

 

Desconheces a minha morada

por isso,

a caixa de correio

nunca trouxe Amor

rabiscado numa folha.

 

Seria um Amor registado

com aviso de receção.

Seria um envelope selado

com o teu cheiro a mofo.

 

Estaria de mãos abertas

para te desvendar.

 

Nada disto seria ridículo.

 

Com sentimentos esdrúxulos,

com palavras agudas,

prenderias o meu coração

com a corda da possessão

em todos os espaços

da imaginação.

 

Nada disto seria ridículo.

 

Iria passar os dedos na tinta

e folhear-te,

e isso iria deixar-me faminta

de ti.

 

Todas as Palavras

seriam beijos

nos lábios.

 

Nada disto seria ridículo.

 

É raro ver química

em pedaços de matéria.

 

Hoje fecho a gaveta

onde tenho as folhas brancas

com as palavras que

nunca me disseste.

 

Isso sim.

É ridículo.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O susto da escuridão



Foto: Katia Chausheva


As árvores acariciam

as nuvens.

A luz negra

dos olhos das aves

vela-me.

Arranco os fluídos

Das paredes.

 

Estou dentro do espelho

e durmo no berço

da voz.

Não há motivos

para te vidrares

em mim.

 

Bate ao vidro.

Ele está trancado

com um laço.

Irás desfazê-lo?

 

Cruzo as pernas.

Espero.

Vejo-te.

Aguardas ver

o que ocultam as folhas

de cetim.

 

Bebes um copo

de água

da fonte cruzada

entre os lábios e a língua.

 

O gesto

faz-te vir

para o meu corpo.

Desvendas por dentro

o que há

no convento.

 

Agora já não encontro

dentro dos olhos

o susto da escuridão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sorrisos de algodão



Foto: Kemal Kamil


Talvez nunca perca

o alcatrão

das palavras

mastigadas,

mas nunca engolidas em seco,

que se agarraram aos dentes.

Alastra mas não mata.

Apenas desgasta.

Desvitaliza-me.

 

Na fissura da raiz

encontro o abismo.

Nas escadas caligráficas

mantenho as mãos

estendidas  para a dança

com o pó.

 

Conserva o que existe.

Revela que estou só.

 

Nesta espécie de céu

em que os sorrisos são de carvão,

as sombras despendem-se do chão.

 

Apago o que está na cabeça

para que nada eu esqueça.

 

Mesmo com as mãos molhadas

de ternuras,

não coloco os pontos nos is.

Não são pontos fortes.

 

Deixo-te com razão,

um sorriso de algodão

que não engana ninguém. 

domingo, 24 de janeiro de 2016

De pernas para o ar


 


Não te falo da dor

que me revolve as entranhas,

dos enganos de alma repetidos

nem da fome dos sentidos.

Não tenho apetite.

 

Hoje lanço-me

de pernas para o ar.

O esqueleto

guardo-o no armário

e a alma na cama.

Está tudo ao contrário.

 

Está tudo invertido,

em repouso,

No quarto

sem passos

nem pássaros.

 

Hoje abandono-me

e perco o caminho.

 

O exterior das coisas

Faz perder a roupa,

deixando à solta

os rios de sangue

a correr pelo chão.

Não contes que, por isso,

me tens na mão.

 

O meu lamento

bate à janela

no soprar do vento.

 

Agora poderei assumir

qualquer posição,

tal como as palavras,

pois então.

 

Talvez este poema

não esteja no ponto.

Talvez deva terminar

com uma virgula.

 

Está tudo de pernas para o ar.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Foge de mim




Foto: Natalia Drepina


Foge de mim.

Não queiras saber do que não vês.

Os espelhos estão sonolentos

e não refletem o que sou.

 

Não queiras saber da nudez da pele,

nem da luz da carne.

Lembra-te que quando a noite cai,

fecho os olhos dentro das pálpebras

e enterro-os debaixo do sono.

 

Não me perguntes

pelas nuvens de algodão

que carrego aos ombros.

 

Não procures explicação

para o orvalho perfumado

que trago na boca.

Não há!

 

Não ouças os passos

que me levam a imagens passadas.

Não te conduzem a lugar algum.

 

Não procures o sol que ilumina a terra

e se infiltra no interior da pele,

pois descobrirás a sombra

que me acompanha.

 

Foge de mim.

A inspiração é tão profunda

Que faz doer os pulmões.

 

Foge de mim.

É possível que aqui

percas a respiração.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A casa


 
 
Foto: Alexin
 
Anda, vamos construir uma casa!

O teu corpo de algodão

é o alicerce.

Um lugar (in)comum.

 

Anda, vamos construir uma casa!

neste  chão em terra

lavrada pelos pés.

 

Anda, vamos construir uma casa

com ventos nos telhados

e janelas de chuva.

 

Anda, vamos construir uma casa

com portas de abraços.

Não há fechaduras.

Tudo se abre sem chave.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Entre a cabeça e a boca

mastigo o cimento

Quero paredes

enchidas de vozes,

ecos teus

e meus.

 
Anda, vamos construir uma casa

sem métrica nem medida.

Que seja infinita

mas contida

nas suas raízes mais profundas.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Tudo preto no branco.

Tudo branco no preto.

Na neutralidade seremos nós:

únicos.

 

Anda, vamos construir uma casa

decorada com os silêncios vazios

que se abrem em colcheias.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Vamos aquecer-nos

no fogo dos olhos.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Tenho palavras presas no cabelo.

Precisamos de algo novo

para habitar.