domingo, 17 de janeiro de 2016

Foge de mim




Foto: Natalia Drepina


Foge de mim.

Não queiras saber do que não vês.

Os espelhos estão sonolentos

e não refletem o que sou.

 

Não queiras saber da nudez da pele,

nem da luz da carne.

Lembra-te que quando a noite cai,

fecho os olhos dentro das pálpebras

e enterro-os debaixo do sono.

 

Não me perguntes

pelas nuvens de algodão

que carrego aos ombros.

 

Não procures explicação

para o orvalho perfumado

que trago na boca.

Não há!

 

Não ouças os passos

que me levam a imagens passadas.

Não te conduzem a lugar algum.

 

Não procures o sol que ilumina a terra

e se infiltra no interior da pele,

pois descobrirás a sombra

que me acompanha.

 

Foge de mim.

A inspiração é tão profunda

Que faz doer os pulmões.

 

Foge de mim.

É possível que aqui

percas a respiração.

domingo, 10 de janeiro de 2016

A casa


 
 
Foto: Alexin
 
Anda, vamos construir uma casa!

O teu corpo de algodão

é o alicerce.

Um lugar (in)comum.

 

Anda, vamos construir uma casa!

neste  chão em terra

lavrada pelos pés.

 

Anda, vamos construir uma casa

com ventos nos telhados

e janelas de chuva.

 

Anda, vamos construir uma casa

com portas de abraços.

Não há fechaduras.

Tudo se abre sem chave.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Entre a cabeça e a boca

mastigo o cimento

Quero paredes

enchidas de vozes,

ecos teus

e meus.

 
Anda, vamos construir uma casa

sem métrica nem medida.

Que seja infinita

mas contida

nas suas raízes mais profundas.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Tudo preto no branco.

Tudo branco no preto.

Na neutralidade seremos nós:

únicos.

 

Anda, vamos construir uma casa

decorada com os silêncios vazios

que se abrem em colcheias.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Vamos aquecer-nos

no fogo dos olhos.

 

Anda, vamos construir uma casa!

Tenho palavras presas no cabelo.

Precisamos de algo novo

para habitar.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Quando os sonhos morrem




Dedicado ao poeta António Silva Melo

 

 Talvez não saibas,

mas as ruas estão desertas.

Mantenho a luz aberta

no meu corpo doente.

A cama está desfeita.

Sinto a carne insatisfeita.

 

Ela fica estendida na cama

em brancos silêncios,

sem promessas de bocas abertas.

 

Quando os sonhos morrem,

deito-me homem

e ergo-me fantasma.

 

A minha vida é esta:

uma longa parada de vultos.

Tenho fome no fundo das entranhas,

mas não sei matá-la.

Tenho-a num gemido

dentro de mim.

 

Bordo-me de luzes acesas.

É a mão que ultrapassa

a noite.

 

Talvez ninguém conheça

a essência dos poemas,

que me percorre dos pés à cabeça:

a tua existência.

 

Hoje,

as palavras do corpo

são poemas ocultos

que te deixo

quando os sonhos morrem.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz Ano 2016


Não passaremos o ano 2016  a dormir. Espera-se que seja um ano em que seja possível continuar a sonhar, mantendo-se sempre a harmonia e a paz.  Ao logo deste ano o que nos ligou foi o verso e os grandes momentos; alguns vieram e fugiram (mas não corro atrás); aos que não gostam da minha pessoa por algum motivo mas estão comigo na mesma, dou-vos a forma de concretizarem o vosso desejo: tecla delete. Gosto de pessoas felizes.
Desejos para 2016? Que corra tudo pelo melhor e que esteja por cá para escrever umas coisas poeticamente aceitáveis e que sejam inspiradoras para os leitores. Sem vocês nada disto seria possivel. Agradeço do fundo do coração o carinho e atenção. Espero que todos consigam alcançar os seus objetivos. Acima de tudo pensamento positivo. Inspirem-se!
Feliz Ano Novo!
Um abraço e até para o ano

sábado, 26 de dezembro de 2015

Madrugada


 
Foto: Marta Bevacqua
 
Há dias de cinza

em que nos embrulhamos

no pó.

Entregamo-nos à liberdade

dos braços caídos.

 

Enlaçamos o espaço

com o orvalho da terra.

Somos mínimos,

breves,

silenciosos

dentro das noites

e dos dias.

 

Os gestos são sombras

e o sorriso é perfumado

pela deterioração.

Cobre-te com o véu poético

das palavras.

Seremos cadáveres acesos.

 

Se arde e não vês,

então é paixão.

Estende os braços

e podes aquecer as mãos.

 

Assassinas todas as sombras

para beijares o sol aceso,

dentro de mim.

 

Assim,

desabrochámos

de madrugada.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

FELIZ NATAL



A todos vós, leitores, que seguis a minha página, e público em geral, desejo um FELIZ NATAL!
Agradeço o vosso carinho e atenção. Sem vocês nada disto seria possível. 
  Uma boa inspiração para este Natal é, sem dúvida estar na companhia dos que mais amamos. Venham daí os doces e aconcheguem o vosso coração com um pouco de poesia. Vamos ter frio este Natal. Agasalhem-se com alegria, boa disposição e uma mantinha .
            
           Um abraço, Ana

sábado, 19 de dezembro de 2015

Impressão digital


 
Abro os caminhos

ladrilhados pelos passos

que não dei.

Mantenho a verticalidade

mas permaneço na perdição.

Para onde vou, não sei.

 

Ultrapasso os muros

que me cercam.

Num passo em falso,

sei da robustez do chão.

Fico a seus pés.

 

Da terra posso ver as estrelas

e as pedras choram por mim.

Suportam o peso

e o que sou.

 

Fico à distância do estender de mão.

 

Amparo-me

na impunidade

que se mantem firme.

 

Não subo degraus.

Elevo-me

para ficar vertical.

Foge-me a língua

para os olhos.

 

Vejo a serenidade

quieta da existência.

 

Deixo o sorriso sofrido

enroscado nos murmúrios

das ruínas

do meu corpo

retorcido.

 

Não voltei a pisar

as pedras da rua

que me possuíram

e onde deixei a minha

impressão digital.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Estou aqui


 
 
A cadeira está vazia.

Há vida que aí se pode sentar.

Não olho para o relógio.

Tirei o tempo do pulso.

Nada estará pela hora da morte.

 

Mantenho os olhos

abertos para a insónia.

Tenho medo do sono.

Tenho o caos no fundo

dos  olhos.

 

Não quero camas de algodão.

Não absolverão

os pesadelos com o papão.

Vou dormir no chão,

amarrada à respiração

que me faz ondular o peito.

 

Dispo as luzes.

Acendo a escuridão.

Respiro a terra que piso.

Sou terra à terra.

Não vou para o céu.

 

Estou aqui.

A cadeira continua vazia.

domingo, 6 de dezembro de 2015

A máscara

 
Foto: John Borg
 
Nunca soube olhar

 para o espelho.

O reflexo nunca

foi nada de bom.

 

Nunca dei nada de mão beijada.

Afinal não devemos levar

algo dado

mas trazer algo novo.

 

À primeira vista

nada se ama

porque tudo surge

do que se provoca.

Não do que se vê

mas do que se toca.

 

Simplesmente o olhar,

nitidamente,

pode devorar-te

a carne.

 

Ficam vagas de silêncio

no corpo agitado.

Transpiro gritos

nas veias  palpitantes.

 

Mantenho o corpo

à tona

mesmo que o fio da navalha

possa rasgar o ar

que respiro.

 

O que se passa por dentro,

ninguém vê.

Todos sangramos.

Estamos vivos!

 

Somos seres ocultos

pela máscara de pele

que vestimos.