domingo, 29 de novembro de 2015

A cama



 
Foto: Bezheviy
 
Quando desejamos,

estamos mortos por algo.

Ficamos no lugar

do morto.

 

Vamos para a cama

e levamos o silêncio

magoado nos lábios.
                            
                           Permite-nos estar direitos,

horizontais

com a ilusão dentro de nós.

 

De mansinho,

damos a mão,

o pulso,

a língua.

As partes não chegam.

Damos o corpo

às palavras engasgadas

na garganta.

 

Brincamos na cama

para atingirmos o ponto

insaciável com elas,

sem proteção.

Respiramos o vazio

entre o teto

e o chão.

 

Quando nasce o dia,

permanecemos acamados,

comprometidos com a saliva

que ficou na almofada,

enquanto dormíamos.

sábado, 21 de novembro de 2015

Na ponta dos pés

 
Foto: Oktay Donmez
 
Na solidão de um quarto

vazio de gente,

um corpo nu,

frio,

adormecido,

está deitado na secretária.

 

Ando na ponta dos pés.

 

As Palavras são

semeadas em terra escura,

por isso,

hoje deveria escrever

de luz apagada.

 

Criam raízes

e não há vento que as abale.

Há momentos felizes.

 

Poderia agarrar-te

e traçar o teu destino.

Mas a boca tem o céu

e a língua tem  tudo

o que te quero dizer.

 

Hoje tens o melhor de mim:

o meu silêncio

escrito na ponta dos pés.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Parto


 
Foto: Luís Carvalhido
 
 
Vou dar versos à luz

Que trago implantados em mim.

É um embrião

Que adormeceu no escuro

do meu ventre

e está aí escondido.

 

Possui-me não me possuindo

Quando o rio vai escorrendo

pelas pernas.

 

É um rio

sem margens

que desagua na Terra,

corpo de vidro.

 

Sinto-me sem chão

quando flutuo

E dá-se a prova da gravidade.

 

Caíram lagrimas do céu.

As pedras ficaram molhadas.

Não farei chorar as pedras da calçada.

 

Não escrevo por linhas tortas.

Não é o meu lema.

Escrevo torto sem linhas.

Não sou Deus.

Crio o poema.

 

Coloco-me em angulo morto.

O corpo partiu-se

Em pedaços de nada.

 

Pequenos brilhos

Existem quando

o sol espreita.

 

Agora não percas tempo.

Olha pelo espaço.

É lá que eu estou.

domingo, 8 de novembro de 2015

Fora de ti


 
Foto: Antonio Diaz
 
 
Os poemas são portas abertas,

dizem,

e por isso não as poderia fechar.

Acabei por me entalar.

 

Dei o meu corpo

ao ofício

e até me cegaram os olhos

de dor.

 

Fiquei fechada cá fora.

Algo se passava do lado de dentro,

debaixo do céu.

 

Sentei-me,

num canto qualquer

à sombra

da luz.

 

Cobri o rosto com as mãos

e fechei os olhos

à realidade e abri os olhos para

a alucinação.

 

Ficou o odor

das rotinas,

do que existe

para além da fronteira

do meu corpo.

 

Ouvi histórias

inventadas

em negros traços orais,

sussurrados em noites brancas.

 

Não conheço o sabor

das palavras salivadas

no céu da boca.

Nunca as disse.

 

O toque trouxe a suavidade

do pó consolidado

do esqueleto que

me agarra o rosto.

 

Disseram-me para escrever

nas paredes

pois são lisas e duras.

Posso gravar o que quiser.

Basta ir para a sepultura.

 

Vela, agora, as  minhas  últimas palavras

caligrafadas,

que te deixo

como herança.

 

Estou fechada cá dentro,

fora de ti.

sábado, 31 de outubro de 2015

A noite não chega


Foto: Morfi Jang & Iwona Aleksandrowicz
 
 
 
Fizeste de mim

Palavra

e por isso,

quiseste-me nua

para me vestir de insónia

e sentir.

 

Enquanto o dia

dormia,

levei o meu corpo

desnudo

à luz do teu auscultar.

 

Levava o ventre inquieto

e a boca com fome.

 

Enlouqueceste-me,

quando soube que

não tinha cura,

com o peito nas tuas mãos.

 

Fitei-te com as cicatrizes

nos olhos

e viste uma beleza

que não há.

 

Perturbaste-me 

com o teu toque

e mergulhamos bem fundo

no inconsciente

da mente.

 

Libertamos o nosso fogo.

O chão ficou em cinza.

A minha voz

ecoou no silêncio

da tua boca.

 

Respiraste o meu grito,

quando me mataste.

 

Agora habito as tuas palavras

todos os dias,

pois uma noite não chega.

domingo, 25 de outubro de 2015

Inutilidade


 
 
Foto: Hamanov Vladimir
 
 
Isto será inútil.

Não cansem os vossos olhos a ler-me.

Para nada serve.
 
 

Por trás do vidro embaciado

existe algo:

uma sujeita com os olhos abertos

para o sono eterno.

 

Reflito, sem pensar,

na janela em movimento

onde um fio de água

estala o vidro na diagonal

e me transforma em bidimensional.

 

A cabeça cai nas mãos.

Perdi a racionalidade.

O corpo morre na sombra

esquecida.

 

Tenho o peito seco,

os braços abertos

para receber as vossas preces

e o coração antónimo.

Já não bate.

 

Fico sob terra,

acima dos comuns mortais.

É inútil a inspiração

da carne

que amamos com o avesso da alma.

 

A folha é estéril.

Continua casta.

A mim só me resta a nudez

das mãos inertes

e uma mancha de tinta.

 

São inúteis as palavras,

neste momento.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sem palavras


Foto: Katia Chauseva
 
 
 
Da minha varanda

vejo uma toalha

a baloiçar.

Diz que pode voar

com a língua do vento.

 

Engulo em seco.

Não tenho palavras para vomitar.

 

Tenho a voz mutilada

e o coração é um

nó cego.

 

Tenho uma corda

de insónias

pendurada no pescoço.

Tenho pouco tempo de vida.

 

Felizmente,

o tempo terminará quando

me fizer pó.

 

Corri a mão

e desço as escadas:

ângulos retos tridimensionais.

Falar de nudez

é falar de mãos.

 

O chão estremece

num clarão

a cada passo que dou.

 

Vejo uma cortina de gritos

mudos a meus pés:

a sombra que existe

para quem “é”.

 

Escrevi-te.

Tudo se tornou claro.

 

A toalha continua a baloiçar.

Não voou.