Foto: Hamanov Vladimir
Isto será inútil.
Não cansem os vossos olhos a ler-me.
Para nada serve.
Por trás do vidro embaciado
existe algo:
uma sujeita com os olhos abertos
para o sono eterno.
Reflito, sem pensar,
na janela em movimento
onde um fio de água
estala o vidro na diagonal
e me transforma em bidimensional.
A cabeça cai nas mãos.
Perdi a racionalidade.
O corpo morre na sombra
esquecida.
Tenho o peito seco,
os braços abertos
para receber as vossas preces
e o coração antónimo.
Já não bate.
Fico sob terra,
acima dos comuns mortais.
É inútil a inspiração
da carne
que amamos com o avesso da alma.
A folha é estéril.
Continua casta.
A mim só me resta a nudez
das mãos inertes
e uma mancha de tinta.
São inúteis as palavras,
neste momento.





