domingo, 25 de outubro de 2015

Inutilidade


 
 
Foto: Hamanov Vladimir
 
 
Isto será inútil.

Não cansem os vossos olhos a ler-me.

Para nada serve.
 
 

Por trás do vidro embaciado

existe algo:

uma sujeita com os olhos abertos

para o sono eterno.

 

Reflito, sem pensar,

na janela em movimento

onde um fio de água

estala o vidro na diagonal

e me transforma em bidimensional.

 

A cabeça cai nas mãos.

Perdi a racionalidade.

O corpo morre na sombra

esquecida.

 

Tenho o peito seco,

os braços abertos

para receber as vossas preces

e o coração antónimo.

Já não bate.

 

Fico sob terra,

acima dos comuns mortais.

É inútil a inspiração

da carne

que amamos com o avesso da alma.

 

A folha é estéril.

Continua casta.

A mim só me resta a nudez

das mãos inertes

e uma mancha de tinta.

 

São inúteis as palavras,

neste momento.

sábado, 17 de outubro de 2015

Sem palavras


Foto: Katia Chauseva
 
 
 
Da minha varanda

vejo uma toalha

a baloiçar.

Diz que pode voar

com a língua do vento.

 

Engulo em seco.

Não tenho palavras para vomitar.

 

Tenho a voz mutilada

e o coração é um

nó cego.

 

Tenho uma corda

de insónias

pendurada no pescoço.

Tenho pouco tempo de vida.

 

Felizmente,

o tempo terminará quando

me fizer pó.

 

Corri a mão

e desço as escadas:

ângulos retos tridimensionais.

Falar de nudez

é falar de mãos.

 

O chão estremece

num clarão

a cada passo que dou.

 

Vejo uma cortina de gritos

mudos a meus pés:

a sombra que existe

para quem “é”.

 

Escrevi-te.

Tudo se tornou claro.

 

A toalha continua a baloiçar.

Não voou.

domingo, 11 de outubro de 2015

Provocação


 
 
Foto: Angela Vicedomini
 
 
 
Aviso-vos que este

poema não pode ser lido.

Não é correto

e é algo a evitar.

Por este motivo,

estou a alertar.

 

Por hoje serei um mau caminho.

Arrumo o rosto.

Serei um retrato perdido.

Vazia por dentro.

Viverei deitada

mas não estarei parada.

 

Dispo-me de tempo

e corpo a corpo,

seguimos o ritmo

da melodia sensual

que se acende na minha voz.

O indomável

irrompe das raízes.

 

Palavras brutas,

talhadas em versos delgados,

ornamentados com vogais

simples e claras.

 

Descobre-me por dentro

com a chave que trazes.

 

À luz das velas

seremos devotos em oração.

De olhos fechados

pediremos perdão.

 

De olhos vendados,

atravessamos a vastidão

 que nos separa.

domingo, 4 de outubro de 2015

A luz


 
 
Foto: Palchyk Iuliia
 
Nessas pedras tão finas,

roucas

que quase perderam a voz,

fiz delas um eco

a sós.

 

Fizeram-me

escrever  nas paredes,

mantendo os  olhos fechados

para não olhar

 para os lados.

 

Despiram-me de preconceitos

e vesti-me de clausura.

Fiz-me direita e

comprometida,

ausente de oração.

Olhava pela janela,

com a mão na tentação.

 

Não foi entre o rosário

que descobri os mistérios

de um amor

que vive no sacrário.

 

O meu tronco horizontal

por entre as sombras

fez a luz vacilar,

quando descubro o mundo que

existe para além de mim.

 

Encontram-se águas revoltas

que embatem contra as ruínas.

É esse o prazer de saber

que é das mãos

que vem a luz.

Só existimos depois disso.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Quando te esqueço


 
Foto: Arkhipov
 
 
Quando te esqueço,

construo muralhas à volta

do coração

e corto os pulsos

para não ter o tempo

agarrado a mim.

 

Quando te esqueço,

a escuridão agita a imaginação.

Assim caminho nua

nas ruas

onde não estás.

 

Quando te esqueço

envolvo-me em silêncio

e visto-me de afastamento.

Enxugo dos meus olhos

a cor.

 

Quando te esqueço,

deito-me na tua cama.

Voo nas margens do corpo.

O gemido sombrio

prende-me às paredes

do chão.

 

Quando te esqueço,

flutuo.

Sou uma doce intoxicação.

Imutável como o mar.

 

Quando te esqueço

preciso que libertes

da prisão

o meu sorriso.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Quando me "matas"


 
 
 
 
Desvendas por dentro

o que por fora

está fora do alcance.

 

Desvendas as cicatrizes

do olhar

quando me acordas

nos teus lábios.

 

As tuas mãos

conseguem trinchar

toda a roupa.

 

Cozinhas-me em lume brando.

Descobres todos os espaços.

 

Haverá sempre

a geometria  curva

do sangue que escorre.

 

É na cama vazia

onde desmaio,

que me torno a gota fria

que cai na terra,

inocente.

 

Se o corpo está quente

é porque o Amor nada faz.

O teu beijo ausente.

Não me satisfaz.

 

Por isso,

se morrer amanha

terei um papel primordial:

serei morta

sobre as tábuas

do caixão.

 

Não chames por mim.

Só te falarão

em discurso indireto.

 

Hoje,

ficarei no sacrário da mente

e adormecerei no teu

peito vivo.