sábado, 16 de maio de 2015

Jogo noturno

 
Foto: Alenushka Sestrichkina
 
 
A cama fica de vigília.

A roupa é cadente.

A pele submissa

ao toque.

O corpo é fluído.

As mãos são virgens.

 

A noite é profana.

É dela que imana

o grito surdo

no poço sem fundo.

 

Os beijos silenciados

ficam perdidos nos

recantos do corpo.

 

Só poderão ser palpáveis

na cama acesa,

lábios de rosa,

colhidos por ti.

 

Infiltra-te na terra.

Incendeia a sombra.

Assim orvalhará na primavera.

 

Amanhã

este poema irá invadir-te

e verás que

nada é o que parece.

Apenas um jogo (poético) noturno.

sábado, 9 de maio de 2015

À vista desarmada



 
Se eu (me) vier

à noitinha,

será na minha cama de linho

onde alinho

as minhas longas pernas.

 

Dispo-me

e deito metaforicamente

o meu corpo,

planície ondulante.

 

Percorro-me pelo avesso.

Nos recantos onde ando
    
sem ti.       

Dedilho acordes

de suspiros

na rua da rosa.

Sonho com as mãos.

 

A voz fica escrita no corpo.

Veste-me de fogo.

Procura-me nas palavras,

poesia de sentidos

onde ficamos perdidos.

 

Incandescente,

ficas do lado de dentro

para que possa morrer lentamente

do lado de fora,

à vista desarmada,

entre as nossas pernas.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Melodia-me


 
Foto: Scarabuss
 
 
Sento-me ao piano.

Da ponta dos dedos

emergem as notas

musicais

na pele pautada

recatada

no avesso da roupa.



Escuta

a melodia do corpo

que se toca em silêncio.

A musica ausenta-se.

 

Isolo o caos

da luz.

 

Há compassos.

Há suspiros dedilhados.

Os contratempos são inexistentes.

Abrimos as colcheias

permanentes

e sonantes.

 

Nos gestos clássicos

da volúpia

as palavras são claras

na boca nua.

 

O beijo é a palavra

inaudível

que te aflora

nos lábios.

 

Depois da poesia,

melodia-me

em silêncio.

domingo, 26 de abril de 2015

Ilusão





Foto: King Douglas

Estendo-te os lenços
que puxo da cartola
para te vendar.
Rendo-me de personificação
Serei o que te ditar
a tua imaginação.
 
Sei que me vês nua
com os meus cabelos
de tinta
permanente.
 
Abrimos arcas proibidas:
estrofes escondidas
na fantasia.
Algemo-te ao verso
que se torna viril
com o toque mágico das carícias.
 
Destilo letras para o papel
para te embriagar
com o perfume
liquido de um corpo
que não vês.
Apenas te alimentas da sua nudez.
 
Desfolhas pétala a pétala
todas as sílabas
da rosa.
Palavras mudas mas claras
como água pura
que recolhes da raiz.
Nada fala.
Tudo diz.
 
Foges para dentro de mim.
Vamos além da página.
 
E num passo de mágica
Tudo se torna real.
O sol sucede no meu corpo.
Mostro-te o mistério
escondido
debaixo do vestido.
 
Nada sai para as tuas mãos.
É tudo uma mera ilusão.



sábado, 18 de abril de 2015

Segredos do céu


 
Foto: Khuraman Yuzbas
 
 
 
Deixas-me fora de órbita.

Cega por ti.

Sufoco a cada verso teu,

linhas que me prendem

à árvore da Vida.

 

Lancetas a minha pele

com o cristal das tuas palavras.

Morro no eco

das palavras mortas

que me escreves.

Tenho a última convulsão.

 

Retira-me a Razão.

As vísceras guarda-as:

recordação de existir.

Viras-me do avesso.

Liga-me.

Perfuma-me.

Fico com a ternura

paralisada  no rosto,

de braços abertos para ti:

sombra acesa na noite.

 

Ergues as mãos para o céu

e apelas.

Absolvido de pecado,

és profano.

Deixas uma flor nos meus lábios:

beijas-me.

Percorres-me debaixo da pele

na cama acesa

onde nos recortamos como sombras.

 

Assim se santifica a nudez

e se descobrem

os segredos do Céu. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O Néctar


 
 
Foto: CB Tom
 
O que se passa

na tua cabeça,

não sei.

Só falo que sinto

entre as coxas.

 

Tocas o corpo quente

de roupa inexistente,

debaixo da luz molhada

da tua língua.

 

Acende-se o fogo preso

que queima

pela cintura.

Com a pele da tua mão

experimentas a água intima

da pura sedução.

 

O corpo reconhece a terra,

quando  rastejamos pelo chão.

Abre-se em flor

e é arrancado pela raiz

com o gesto

derramado na pele.

 

Deixas cair minúsculas sementes,

letras sem cais.

Atingimos o ponto certo

com as palavras:

poesia corporal.

Escorrem do favo de mel

e perpetuam

o seu sabor liquido

na tua boca.

 

Nasce, assim,

o néctar dos deuses.