quarta-feira, 1 de abril de 2015

Nudez do desejo


 
 
Foto: Inna Kowalska  

 
Percorres o meu corpo

sem rumo.

Sem Sol.

Sem Dó.

Sem pausa.

 

Reluzimos (in)discretos.

com os lábios acesos

na pele dos sentidos.

 

Fico sem corpo,

quando corro nas tuas mãos

como rio quente.

Mergulhada em seiva

a rosa abre-se.

Espalha o perfume,

essências afrodisíacas.

 

Gememos juntos

na urgência da carne

no ponto certo

do orgasmo.

 

Algo te afoga.

Algo me rompe.

Já.

 

Enterramos as Palavras.

Nada falo.

Tudo se eleva.

Torna-se mais visível no grito

hibernado na nudez

do desejo.

sábado, 28 de março de 2015

Assim se morre

 
Foto: Bjorn Oldsen
 
 
Anda comigo ver o mar

na alvorada do sentir.

como humanos

poderemos perder o pé.

Seremos oceano.

 

Ensaboo-me na tua voz.

Dissolvo-me nas tuas

mãos acesas.

Soletro devagar

as letras soltas

nas ondas do teu corpo.

 

És um mapa astral.

Não são precisas estrelas.

Leio-te em braille.

Estou cega por ti.

Bordas nos meus lábios

o que a língua diz

e no silêncio da rima

surge a poesia.

 

Meu rio cristalino,

escuta na concha

o meu grito de maresia.

Enlaça a água.

Falo em mim.

Falo em nós.

Assim se morre

no sitio certo.


sábado, 21 de março de 2015

Liberdade presa


 
 
Foto: Stanmarek
 
 
 
Cresce a nudez.

Sinto-me pura.

Venho com a brisa.

Mato a sede.

As mãos seguem o Fado

e descobrem a Pedra Filosofal:

o poder dos sentidos.

 

És perfeito em mim,

quando soltas

os versos mortos

que ainda não escrevi com a língua

na folha aberta

dos teus lábios.

 

Solto murmúrios molhados

de um segredo

profundo

e assim concedo o poder

 de ouvir o bater

orgásmico do coração.

 

Violamos as Palavras.

Roubamos os segredos carnais.

Atentamos ao pudor.

Matamos o desejo.

 

Seremos presos.

Nunca te livrarás de mim.

Assim tem de ser.

 

domingo, 15 de março de 2015

O grito


 
 
Poupa energia.

Descobre a lua curvilínea

do meu seio.

Funde as estrelas.

Há a energia renovável

com o movimento corporal

no horizonte

vertical.

 

Tudo se torna descartável.

O que nos cobre

fica espalhado pelo céu.

A cada toque

reciclas o meu corpo.

Levas-me o eco

(ao) ponto certo.

G(emo).

 

Sem erros

nem acordos,

decompomos a

língua em verso.

Abres o livro

que tu folhas

de páginas molhadas

com ditongos meus.

 

A flor,

Amor que floresce

mergulhada no orvalho,

espalha o perfume liquido

nas margens do ser.

 

Uma loucura despida

percorre os teus braços

até libertar último gemido:

o arrebatamento final.

domingo, 8 de março de 2015

Desassossego


 
Foto: Ilona Pulkstene
 
 
As Palavras são indefesas.

Pequenas sílabas.

Seres vibrantes

que trazemos na ponta da língua.

Deitam-se para mim.

Ondulam

nas pontas dos dedos.

 

Violadas

no olhar de quem

as despe com o olhar

e as toca com uma voz sem eco.
 
 

Hálito sem sopro

de um corpo morto.

Imagens sem cor.

Espelho sem reflexo.

Desejo opaco.

Desassossego.

Caos.

Abismo.

Labirinto.

O pulsar do sangue.

A dor.
 
Lâmina.
 
O Amor.
 
A presença sem companhia.

Silêncio.

Grito.

Pedra nua.

Pétala de rosa.

 

A Palavra é a nascente.

Corre em verso.

Desagua no poema:

água essencial ao ser humano.