sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A Rosa da Saudade


Na Saudade não há enlace.

Estende-se a mão e não há alcance.

É o rio que corre no leito,

que escorre e inunda o peito.

Não volta atrás.

 

Vasculharia as palavras

no fundo da gaveta

para as espalhar no deserto do papel.

Juntaria as letras.

Formaria palavras.

Afinal precisaria de companhia.

Não gostaria de estar sozinha.

 

As palavras nada diriam.

Ficaria entre a Vida e a Morte.

Ficaria entre o Grito e o Silêncio.

A página deserta

tornar-se-ia uma ferida aberta.

Com palavras violentas ou ternas

cavaria fundo a sepultura

com as  mãos fechadas em torno da caneta,

instrumento de tortura.

 

Seria uma boneca com olhos de esperança

perdidos nos sonhos

de quem se ama e não se alcança.

Seria uma Vida que passa lenta.

Seria de pouca dura.

Contentar-me-ia a olhar para as mãos vazias

em busca dos teus restos de ternura.

 

No final seria a Rosa da Saudade

sem espinhos e sem idade.

Brotaria sem chão

na lembrança de um novo Amor

com feições desconhecidas.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Não contes a ninguém


Deitei-me no sofá.

Sentia-me cansada.

Acabei por adormecer.

Nem dei por nada.

 

Sentia a presença de alguém perto.

Emergiu um calor de repente.

Foi o teu olhar incendiado.

Não me apercebi imediatamente.

Aconcheguei-me no sofá.

Deitaste-te a meu lado.

Viste-me de costas voltadas.

Rodeaste o meu corpo.

Despenteaste os meus cabelos.

Afastaste os meus pesadelos.

Chamei por ti

Estava no meio de um sono agitado.

Não tenhas medo. Estou a teu lado.

Beijaste o meu pescoço devagar.

Senti o teu ansioso respirar.

Fiquei a flutuar.

 

Mesmo sem veres o meu rosto

conseguiste ver-me através da roupa.

Fiquei despida com o teu olhar.

Rodei nas tuas mãos.

Mordeste os meus lábios

como um amante insaciado.

Vagueaste pelo meu corpo que desfolhaste da roupa.

Vi o teu rosto loucamente apaixonado.

Nada se perdeu em mim.

O meu grito ecoou na tua pele

onde pesava o coração.

Agarraste-me com força enquanto era palpável.

Nada se perdeu de nós.

 

Voltou a primavera.

Colhi o teu sorriso com as mãos.

Guardei-o dentro de mim.

Amo-te e quero-te assim.

 

Desperto e desapareceste.

Não agarrei nada do que em mim tocou.

À luz do dia tenho um segredo

Sonho contigo para te amar quando quiser.

Não contes a ninguém.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O poema do avesso

Não sou nada.
Não sou ninguém.
Sou um anjo selvagem.
Livre!
Aprisionada no Amor de Alguém.
Apenas isso.

Sou uma mendiga.
Peço pouco.
Quando me dás algo,
quero tudo.

Tenho insónias.
Gosto de dormir pouco.
Quando durmo, sonho contigo.
Não gosto!
Prefiro descer das nuvens do sonho
e apanhar-te na esquina da realidade.
Posso percorrer as curvas do teu corpo.
 
 
Julgo que não tens saudades minhas.
Sou tua mas não me tens.
Olhas para os malmequeres.
Nada te dizem.
Recordas os cabelos doirados da tua amada.
É uma doce lembrança.
Assim, amas os malmequeres depois de mim.

Posso morrer.
Nesse momento caio na vertigem.
É o teu beijo que me tira a vida.
Sinto a tua vida a fugir-me por entre os dedos.
É o nosso corpo que fala
através da Poesia.
Entrelaçamos a nossa história.
Tornamo-nos poetas anónimos.

Agora, sentada à secretária,
a caneta rabisca o papel
como se soubesse alguma coisa.
A caneta não tem tinta.
Afinal não sabe nada!

sábado, 24 de agosto de 2013

A noite branca


Nos olhos paira a ausência.

A voz está enrouquecida e lenta.

Regressam coisas ocultas.

O teu rosto está perdido,

meu anjo selvagem,

na minha memória.

Deito-me junto da tua imagem.

As aves fogem.

 

Quando acordo

estendo os braços para a madrugada.

Devagar os pouso.

Fecho os olhos e não ouço.

Em silêncio, meu amor, quis saber de ti.

Voa um pássaro pálido e azul

e pousa no beiral.

A noite foge.

 

Salvas-me da noite escura.

Debruço-me sobre ti.

Embriago-me com o teu cheiro e a tua ternura.

Viajo nos teus olhos.

Agarro-me a ti.

Mergulhamos no leito

e surgem ondas no rio.

O desejo torna-se uma onda de fogo

e queimamos os nossos lábios em beijos intensos.

Tornamo-nos um só

e a noite fica branca, com a nossa luz.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sem saberes, matas-me


Nas margens do teu ser

nasce o poema.

Gotas de orvalho,

palavras frágeis,

desvanecem-se ao tocar-te.

Morro com elas.

 

Sonho contigo.

Há a ânsia de te tocar,

meu pássaro de fogo.

Sou descuidada.

Não te consigo agarrar.

Entre as minhas mãos e o teu corpo

fica a Saudade e o vazio.

 

No fim do tempo, toco-te.

Pouso a cabeça no teu ombro.

O cabelo cobre-me o rosto.

As lágrimas escorrem devagar.

O teu sorriso seca-as.

A minha boca fica aprisionada

nos beijos quentes:

a nossa Liberdade.

 

Nasce o poema alado

que no meu corpo trago.

Tudo começa com o verso

que tem a força do Universo

e que está gravado no meu avesso:

Sem saberes, matas-me (poeticamente).

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Vamos ver as estrelas


Passo a noite no divã.

Os olhos verdes refletem a esperança vã.

A ausência pesa-me nos olhos.

Se nos dedos tivesse os teus segredos

Poderia desvendar-te.

A lagoa não reflete as estrelas.

Levanto-me.

Sacudo o pó do Amor que guardei no armário.

É o Amor encantado

que desmaia no meu corpo e me consome.

Não está parado.

 

Dispo as tristezas.

Na penumbra vislumbro o teu corpo.

Rios de fantasia, águas apressadas,

 consomem-me as entranhas e

lançam-me para um Mar de sensações.

Entranças o meu cabelo

para me veres à contraluz.

Existe algo nos teus gestos que me seduz.

Beijas-me com as mãos.

Abraças-me com o olhar.

Passas a mão pelo perfil.

Esboço um sorriso infantil.

 

Perco-me.

A vida foge por entre os teus dedos.

Conheço os teus segredos.

Guardo-te dentro de mim.

Mergulho na luz da manha.

Cobres-me com as tuas asas.

Juntos, levantamos voo.

Vamos ver as estrelas.

domingo, 11 de agosto de 2013

O poema não acaba assim


Escrevo e algo acontece.

Olho pela janela e amanhece.

As falas são ocultas.

Existe outra linguagem

que se fala com a voz muda.

É uma linguagem preciosa e talhada pela imaginação

Basta pegar na caneta ou no lápis de carvão.

 

O relógio marca horas passadas.

Revelam-se momentos.

Nos labirintos da alma

sinto-me a queimar por dentro.

Fico a navegar num mar sem fim.

São poucas as coisas que escrevo.

Todas brotam dentro de mim.

Posso enumerar o que sinto

colocando uma virgula de separação.

Isso seria demorado

coloco reticências e fica o assunto arrumado

Fico espantada por consegui-lo fazê-lo assim.

(Será que, por acaso, alguém gostará de mim?)

Fica a pergunta cuja resposta não interessa saber.

Coloco a questão entre parênteses

para que o que pensei se possa ler.

 

Este poema é um monólogo.

Deveria iniciar-se com um travessão.

Estou a falar sozinha

como eco para o coração.

A poesia não vive de imagens, afinal.

Vive do que a língua nos diz.

O papel é o limite.

O infinito o objetivo.

Espera-se um final com um ponto feliz.

Mas o poema não acaba assim...