sábado, 21 de março de 2015

Liberdade presa


 
 
Foto: Stanmarek
 
 
 
Cresce a nudez.

Sinto-me pura.

Venho com a brisa.

Mato a sede.

As mãos seguem o Fado

e descobrem a Pedra Filosofal:

o poder dos sentidos.

 

És perfeito em mim,

quando soltas

os versos mortos

que ainda não escrevi com a língua

na folha aberta

dos teus lábios.

 

Solto murmúrios molhados

de um segredo

profundo

e assim concedo o poder

 de ouvir o bater

orgásmico do coração.

 

Violamos as Palavras.

Roubamos os segredos carnais.

Atentamos ao pudor.

Matamos o desejo.

 

Seremos presos.

Nunca te livrarás de mim.

Assim tem de ser.

 

domingo, 15 de março de 2015

O grito


 
 
Poupa energia.

Descobre a lua curvilínea

do meu seio.

Funde as estrelas.

Há a energia renovável

com o movimento corporal

no horizonte

vertical.

 

Tudo se torna descartável.

O que nos cobre

fica espalhado pelo céu.

A cada toque

reciclas o meu corpo.

Levas-me o eco

(ao) ponto certo.

G(emo).

 

Sem erros

nem acordos,

decompomos a

língua em verso.

Abres o livro

que tu folhas

de páginas molhadas

com ditongos meus.

 

A flor,

Amor que floresce

mergulhada no orvalho,

espalha o perfume liquido

nas margens do ser.

 

Uma loucura despida

percorre os teus braços

até libertar último gemido:

o arrebatamento final.

domingo, 8 de março de 2015

Desassossego


 
Foto: Ilona Pulkstene
 
 
As Palavras são indefesas.

Pequenas sílabas.

Seres vibrantes

que trazemos na ponta da língua.

Deitam-se para mim.

Ondulam

nas pontas dos dedos.

 

Violadas

no olhar de quem

as despe com o olhar

e as toca com uma voz sem eco.
 
 

Hálito sem sopro

de um corpo morto.

Imagens sem cor.

Espelho sem reflexo.

Desejo opaco.

Desassossego.

Caos.

Abismo.

Labirinto.

O pulsar do sangue.

A dor.
 
Lâmina.
 
O Amor.
 
A presença sem companhia.

Silêncio.

Grito.

Pedra nua.

Pétala de rosa.

 

A Palavra é a nascente.

Corre em verso.

Desagua no poema:

água essencial ao ser humano.

domingo, 1 de março de 2015

Anatomia

 
Foto: Litovkin Sergey
 
 
A noite abre a janela.

Espreita o dia.

Persegue-a até à sombra

da escuridão.

De olhos fechados,

apagamos a luz.

 

Trazemos na pele

dos dedos

os segredo carnal.

há a necessidade de enlace.

Aproxima-te.

Deslize dos lábios.

Suspiro:

o breve respirar dos enamorados.

Acelera.

 

Acaricio-te o rosto.

Busco em ti o gosto

do sangue

que em mim pulsa.

 

Através do toque

penetramos no túnel de palavras.

Mergulhamos na água

da nossa intimidade.

Rodopiamos nos gemidos

húmidos.

 

Destruímos o limite contínuo.

Beijo suave.

Beijo penetrante.

Beijo curvo.

Despiste certo

no piso escorregadio do prazer.

 

É essa a anatomia do beijo:

conseguimos deslizar

nas curvas suaves

da nudez do corpo

e da alma,

enquanto sonhamos

com algo palpável.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Sabias?

 
 
Foto: Liliana Karadjova
 
 
Sento-me na mesa do café.

Vamos dar as mãos e

ter dois dedos de conversa.

Vamos revelar os nossos segredos

no silêncio de um copo.

Aumenta o nível.

Senta-te na cadeira.

Não cairás daí.

 

Espera para pedir

o que desejas.

Diz-me isso ao ouvido

e não pagarás por isso.

Às vezes dizer o que vai na alma

é preciso.

Teremos uma conversa relevante

Coloquemos algum tónico

nas palavras bebidas

pela voz.

Embriagadas dentro de nós.

Somos capazes de ficar com a cabeça às voltas.

 

Não me apetece falar de coisas bonitas.

Não te vou falar de sentimentos.

Isso não dá para mim.

Não sou a tal.

Sou o que escrevo.

Sou o limite da tua imaginação.

Um hálito de poesia.

Não existo.

Sabias?