domingo, 14 de setembro de 2014

O Fruto


 
Foto: Telma Perdigão
 
 
 
Caminho no quarto
obscuro
na procura tátil
da tua mudez.
 
Sei que entre nós
já nada há para falar!
 
Recolhes a fruta amadurecida
para ti apetecida.
 
Com as mãos inflamadas,
descascas o fruto devagar.
Deixas que mostre a sua essência:
pele suave, pura inocência.
 
Debruças-te sobre
o seu rosto
para sentir o gosto
nos teus lábios
traçados
pela língua
que te faz pronunciar
uma palavra sem voz:
beijo.
 
Percorres as linhas
do seu corpo
curvilíneo.
Procuras os espaços vazios
para saciar a sede.
Morde-o devagar.
Saboreia-o lentamente.
 
Para encontrares o prazer
tens de te perder.
 
Agora, fico em ti,
 (re) vestida do teu cheiro.
Procuro o sossego
na excitação entranhada
no que fica.
 
Encontras, assim, o fruto (nada)
proibido
que será sempre consumido
pela chama,
sem fogo,
de quem se ama.

sábado, 6 de setembro de 2014

Não me olhes!



 
Foto: J. Casielle
 
 
 
Não olhes para mim.

Ainda não acordei

a minha alma.

Não conheço pontualidades.

Apenas interrogações.

Está tudo suspenso

no meu Mar de escuridão.

 

Não me procures.

Estou refugiada atrás da porta

que guarda pessoas.

Dentro das gavetas

escondem-se Palavras sem voz.

Quando lhes tocamos

sabemos que não estamos sós.

 

Não contes o tempo para me ver.

O Tempo passa depressa

e eu faço horas

para não correr com Ele.

Faço compassos de silêncios

de Palavras insuportáveis.

 

Torço-as para fazer

jorrar a memória.

É assim que fotografo

e conto uma história.

 

Não te aproximes quando,

estendo as Palavras.

Elas mordem-me os lábios.

Ferem-me.

Caio em abismos distantes.

Há nevoeiro.

Ele nada tem.

Preciso de um astrolábio

para me orientar e encontrar a Paz.

Não sei se ela vem.

 

Não me sigas!

As Palavras desconhecidas

dão-me asas

e Norte.

Voo e parto para a Morte.

 

Crio atalhos

no mar movediço.

No corrupio

ouço o que não dizes.

 

Morro no Mar de Letras

que me beija.

Não olhes para mim.

Já não estou aqui.

domingo, 31 de agosto de 2014

Amanha


 
 
Pinta a janela.

Desenha-me

onde a noite começa.

Atravesso a penumbra.

 

A água rendilhada,

adormecida no fundo do copo

estremece com o sopro

do teu toque

contra o meu corpo.

 

Derramo o rendilhado

no chão armadilhado

pelo desejo de ti.

Reescreves-me poro por poro.

Fazes das palavras

Água.

Deixo-me diluir

na tua língua.

Percorres-me inteira

as veias

do meu ser.

 

Desperto submersa

nos timbres esquecidos.

Fico na fronteira da tua voz.

Estamos sós.

 

Inunda-me a ternura.

Ato-me nos teus dedos.

Perco o sentido do tato,

quando revelo o teu retrato

em olhares letrados

que tudo dizem.

 

Deixas o cheiro na raiz da pele.

Deixo os meus cabelos caídos,

doces lembranças

de um Amor

renovado.

 

Amanha um poema irá abraçar-te

e eu irei beijar-te

em Silêncio.