quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Desvenda-me

 
Foto: Graça Loureiro
 
 
Se conhecesses o meu Silêncio

saberias

que ele é repleto de gotículas,

pequenas letras que tombam

sobre as folhas caídas

do teu olhar.

 

Saberias que ele não

é feito de gestos

mas de tempo parado.

É aí que teço os versos

em caminhos diversos

da minha pele.

É o meu Fado.

 

Abro as asas para o vazio.

Penduro a Lua no céu

numa fase nova.

Escondo o Sol

atrás do corpo.

 

Ao meu manto

de seda descartável

diante de ti,

digo adeus.

Ficarei oculta

em cada palavra tua.

 

Fico longe do mundo terreno.

Os fantasmas invisíveis abandonam

o meu sono.

Agarro o que é celeste.

Adormeço no Abismo

de algodão.

Sinto as carícias desenhadas

pela tua mão.

 

Desvenda-me,

anónima,

pelo avesso.

Sou eu, apenas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Rainha das Sombras


 
Foto: Igor Voloshin
 
 
Estou empoleirada na tua alma.

Canto uma música sem palavras.

Desperto incendiada no teu pensamento.

Parada no tempo dás-me asas cortadas

nos versos que me escreves.

 

Teces o meu vestido

com linhas de tinta.

Encostas-me às margens.

Não há fuga possível.

Desfias-me.

Remendas-me.

Sou nó.

Cega de ti.

 

Apertas-me num abraço

como um botão de rosa.

Assim sinto-me em casa

contigo.

Tornas-me singular

para encontrar

múltiplas formas de me definir.

 

Sou um poço sem fundo

mas mergulhas no meu mundo.

Ouves o meu canto de abismo.

Somos um canto fechado

entre quatro paredes.

Torno-me um corpo alado

a teus olhos.

 

Vejo-te como sei.

Passo os dedos pelos teus lábios

sedentos de mim.

Fecho-me em copas

e calo a tua boca num beijo sem fim.

 

Deitas a cabeça

no meu regaço.

As linhas cujo traço

ilumina as minhas asas

à luz negra da noite,

torna-me Rainha de Sombras.

sábado, 26 de julho de 2014

Sem ondas

               
 
Foto: Hamanov Vladimir
 
 
A chuva cai,

quando se está no chuveiro.

Vai caindo de rajada.

Beija o corpo inteiro.

O cabelo fica com estrelas a brilhar.

O corpo fica claro.

Sentimos leveza.

Vontade de voar.

 

Fica nas mãos o cheiro

do sabor que procuras.

Absorvem-se essências,

incoerências minhas

que perfumam o espaço.

Olho para o espelho

e vejo que está baço.

Adensou-se o nevoeiro.

Estou presente

mas nada está claro.

 

Limpo o espelho.

A imagem fica condensada

no sopro de ar.

Visto-me de frio,

quando me dispo nas chamas

da ilusão poética.

 

Os versos são cintos brancos.

Sem medida.

Ajustada com rimas inexistentes.

Os sinais de pontuação são finais

e perpetuam o pensamento.

Pausa.

Espera.

As Palavras são indecentes.

Podem revelar muito.

Nunca dizem o suficiente.

 

Apanho os cabelos

e prendo-os na loucura da razão.

Navego no sonho.

Finda-se a tempestade.

Aqui já não existem ondas.

sábado, 19 de julho de 2014

Espero-te aqui


 
 
Descalço-me da Vida.

Descalço-me para a poesia.

Envergo palavras de seda

rendilhadas de pérolas

de fantasia.

Reflito a Alma

que emerge no espelho baço

da palavra escrita.

 

Sei que o Amor é sombrio.

É nocturno.

Acende-se, contudo, o rastilho.

Sinto tudo na planta

que emerge da flor

da pele.

 

Roubo-te.

Vamos dançar.

Ficas a meus pés

numa altura que não vi.

Não sei quem és.

Apenas te sorri.

 

Surges pela porta fora

da distância.

Vens inteiro,

quando te descubro

e mergulho a caneta no tinteiro

do teu Amor.

 

És mendigo.

Queres que esteja contigo.

Não me desnudo.

Não sei o que é o Amor,

digo-te.

Não te pedirei um beijo por favor.

 

Abaixo da razão,

a anatomia do beijo

prende-me ao chão.

Estou aqui.

Possuo a tua língua.

Falámos com antónimos.

Beijamos com sinónimos.

Usamos paradoxos:

ardemos no fogo

que não vemos.

Falamos de coisas que não entendemos.

E no fim colhes a flor de inverno.

 

Respiro o Céu.

Estou morta na terra.

Sabemos o que o desejo encerra,

agora.

(Re)visto-me a preto e branco

quando vais em contramão.

 

Fecha a porta.

Volta amanha.

Espero-te aqui.