sábado, 7 de junho de 2014

A Rosa

 
 
Posso despir-me, é certo.

Posso lancetar a minha pele.

Rasgá-la.

Deixar a cicatriz.

Fechar os olhos.

Esquecer que o fiz.

 

Hoje não!

 

Não há ruído

na melodia que trago

nos dedos.

 

Não há rasgos

na seda cristalina

que despe o meu corpo.

 

Há um arrepio

na minha mente.

São as tuas mãos

que me tocam

indiscretamente.

 

Traço-me com linhas silenciosas.

Banho-me no rio

que invade o jardim.

Sei que nesse momento

olhas para mim.

 

Estendo-te as folhas que escrevi

Pediste-me e, com amor, me despi.

Tudo fica morto

na raiz do meu mundo.

Entranças a beleza da flor

que beijas com fervor

para conheceres o centro do seu desejo.

 

Revolves a minha alma.

Libertas um desejo enraizado

no perfume que no meu corpo

trago guardado.

 

Acendes a magia dos meus olhos.

Tocas (me) para mim.

Algo fica parado

num mundo encantado,

criado para nós.

 

Apago a minha presença.

Floresço em Palavras

como antes

numa essência de amantes.

 

Hoje sim!

Ofereço-te a rosa

que tenho escondida

no meu vestido.

sábado, 31 de maio de 2014

Desassossega-me


 
Foto: Andreas Day
 
 

Num poema de inverno

encontro o retrato

abstrato,

sombrio.

Vejo-o na esquina das coisas visíveis,

no contorno

de coisas impercetíveis.

 

Apago-me no papel.

Torno-me tátil.

Sou a libertação

de versos armadilhados

que me deixam

no abismo da Solidão.

 

Rasgo os papeis.

Divido-me em silabas

soadas numa noite qualquer.

Invento coisas comuns

para dizer.

 

Há algo que fica.

Há o grito que não termina.

O espelho não é claro.

Desfoca-me.

 

Traço-te.

Desfaleço no teu sorriso.

Atas-me.

Soltas-me

em linhas indiscretas.

 

Desfaz as minhas palavras.

Devora-me.

Enreda-me na teia

sem voz.

Delira.

Cai na armadilha.

Sê meu.

Desassossega-me

(outra vez).

sábado, 24 de maio de 2014

Pauta do Amor

                            

Foto: Marta Ferreira
 
 
Esticas o braço.

Prolongo-te com a mão.

Estendo o arco.

Faço vibrar o que existe no teu corpo.

Fragmento-te.

 

Entre (a)braços

quebram-se os silêncios.

No contacto com o meu corpo

a poesia transforma-se em canção.

A melodia (que me deixa)

nua,

faz-me tua

com paixão.

 

Somos um.

Sem dó.

Fecho os olhos.

Sei onde estás.

Somos o encaixe perfeito

entre as pernas e o peito.

 

Dissolvo-me em viagens auditivas.

Cubro-me com as tuas

marcas sensitivas.

Perpetuo-me.

 

Ocultas-me atrás do véu

da paixão.

Fico atrás de ti.

Possuo-te lentamente.

Desvendo-te.

 

Sou a lua cheia.

Sou o centro do universo.

Apagas as palavras.

Falamos línguas no reverso

da boca.

 

Adivinho o teu desejo

que fica no espasmo

do que toco.

 

Fecho os olhos.

Perco a visão.

Resta-me apenas a audição.

Reescrevo o teu eco

num delírio enfeitiçado

nas pautas do Amor.

sábado, 17 de maio de 2014

A Química

 
 
Num tubo de ensaio

bem esterilizado

coloco o Amor que é um bom solvente.

Junto apenas o que a Alma sente.

Esta experiência irá servir para quem?

Nem eu sei bem.

 

Não se procura densidade.

Não se procura afastamento.

Tem de haver é Liberdade

para ter.

Temos em mãos um solvente

que dissolve quase tudo.

Até o que não se consegue ver.

 

Neste caso não usamos a ampulheta

para medir o tempo de reacção.

basta contar rapidamente

os batimentos do coração.

Sobe a temperatura.

É o ponto de ebulição.

Tem cuidado que está quente.

Pode haver uma explosão.

 

Misturamos bem o solvente e o soluto.

Obtemos a homogeneidade.

A pura solução.

Não se pode separar.

É o que diz a Lei da União.

Não há, dizem, regra sem exceção.

 

Quando a temperatura desce

e fica á temperatura ambiente,

tudo se destila.

Fica tudo separado novamente.

Resulta o absinto

no fundo do tubo.

retiro um pouco com a pipeta.

Não irei provar como a Julieta

ou como o Romeu.

Não me recordo quem o bebeu.

 

Fica a amostra.

Fica registado

que o Amor se não for bem cuidado

pode levar a um mau resultado.

No Amor basta ter um tubo de ensaio

e ir experimentando para não ficar Só.

Bem dizem que o Amor utiliza a Química

que existe em Nós.