sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Silenciosa



Triste silenciosa
 
Com olhos de ausência

Voz triste e lenta

De ti outras coisas ocultas emergem.

Palavras misteriosas e enraizadas em ti

E que invadem as muralhas de papelão

Dilacerando-as na fuga.

Louca silenciosa.

Solidão que prevalece

Onde existem furacões de sonhos

De tudo e coisa nenhuma.

Vozes roucas e suplicantes

Que te fazem fechar os olhos

Por breves instantes

Quando a noite se expande.

Silenciosa!

Com o peito rasgado por essa ansiedade

que não compreendes

Passeias com ele bem aberto

Estando o caminho deserto

E o orvalho cai sobre as rosas.

E assim amas em silêncio.
 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Da minha janela


À noite outras coisas vivem
Da minha janela não vejo as estrelas
Olho a paisagem mas não vejo ninguém
Mas no fundo da escuridão
Frio e delicado como a neve
Vejo um movimento leve.
A sombra de um corpo que avança devagar
E ousa revelar-se.
Finalmente vens ao meu encontro
Ajuda-me a fazer silêncio
Quando tenho uma vontade de chorar
que vem de dentro.
Está frio e apenas tenho uma capa
Que o meu corpo pouco tapa.
Envolves-me como a noite
Deixas-me despida
sem nada.
Tenho só o corpo, que sou eu
E o teu amor que é meu.
Agora é tarde…
Já amanheceu (em nós).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O pecado está servido


Esta noite a mesa foi posta
Com a certeza que a noite será vossa.
Não existem loiças de luxo ou outras coisas que tais
Existem pratos humanos
e outras delicias tropicais,
Todas cozinhadas com o calor que nesse espaço faz.
O jantar é servido mas os convidados saltam na ementa
E começam com a sobremesa.
Para começar colocou-se num dos pratos
mousse de frutos silvestres
Que serviu de creme corporal
Que foi espalhado nesse prato
com uma massagem
que ficou marcada na pele
com a língua que fez a sua passagem de uma forma relaxante.
Mas tudo ficou mais excitante com a introdução de uma nova iguaria
Calipo de morango que foi saboreado devagar
e que apesar da sua frieza,  acabou por desaparecer
No momento em que começou a derreter nos lábios quentes
De quem o estava a saborear
Transformando-se num sumo bem apetecível de refrescar
a chama da boca de quem o sentiu.
Mas ninguém estava satisfeito
E ele saboreou o creme de um doce bem apetitoso
um crepe recheado com chocolate e canela.
Deixou-se ficar com esse sabor na língua
que era tão afrodisíaco que era impossível de recusar
e que o deixou louco de excitação.
Saboreou e apreciou todos os condimentos desse prato tropical
Bem feito e delineado com a doçura e extravagância natural
Mas os morangos foram o digestivo ideal
Servidos na boca de quem esteve presente
E que fechou os olhos para sentir a frescura desses frutos
Servidos com o beijo que amanheceu a noite.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A insónia


O meu quarto é o meu mundo
Nesse mundo mora alguém
Não sei se esse alguém me ama
Não reconheço ninguém.
Existe uma voz que me visita
Quando tudo adormeceu
Incessantemente
Toca no meu corpo
Mas não sabe ele
Que a alma morreu.
Olha-me em silêncio
Quando não o posso ver
Pois quando abro os olhos
Fico cega com a luz da sombra
que me ofusca.
Tento fugir dessa sombra
Peço à luz que não se esconda.
Agora não consigo dormir
Talvez tenha de esperar
Talvez amanha tenha o meu momento.
Agora retiro a máscara
Não me reconheço
Estou envelhecida
Parti o espelho.
Junto os pedaços
E só vejo parte de mim.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Escultor

Um dia encontrei um escultor
Que se dizia dono e senhor
da obra que criou
Quis saber como ela, sua escrava se tornou
E ele contou.....
 
 
Minha escrava, minha inspiração
Nasceu por entre as minhas mãos
Instrumentos naturais, o meu corpo,
Nada mais.
Era uma mulher sem vestes
Pois não conhecia os seus gostos
Apenas idealizei o seu corpo
quando se despe.
Fiz o barro rodopiar
por entre os meus dedos
Só para a forma lhe poder dar.
Rodopiou e lentamente
consegui delinear as suas curvas
Linhas de perfeição.
Quis desenhar os seus lábios
E senti-los como se fossem reais
E fiz a incisão com a minha língua
Para dar-lhe o sabor
do que era meu.
Acariciei-lhe o rosto
Para que sentisse o meu calor
Alisei os poros mais rugosos
E desci devagar.
Idealizei os peitos que deveriam caber na minha mão.
Demasiado grandes não.
Curvas delicadas, de pele branca
E com as pontas dos dedos
Realcei as suas saliências
Marcas da sua inocência.
Como felino sedento
Esculpi o monte de Vénus
junto à fonte do prazer
Que estava seca mas com a minha língua
desejei que água começasse a nascer.
Passei com as minhas mãos sobre a paisagem
E naquele momento, como uma criança,
Desejei que fosse real
E nessa esperança
Fechei os olhos para fantasiar
E Ela ganhou vida.
Saciei-me, por fim, na sua fonte,
De uma forma tão necessária
E deixei-me embalar por essa música
Os seus gemidos
que a fizeram cair de joelhos.
E foi nesse momento que soube
Que me iria satisfazer
Dando o melhor ao seu Senhor:
a sua possessão numa mesa de pedra num dia de inverno. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nas chamas do Inferno


Ouvi dizer que o Amor morreu
Quem o diria?
Parece que irei à missa
De sétimo dia.
Visto-me de encarnado
E caminho pelas ruas caiadas de inocência
Triste ironia
Mas não é pura coincidência.
Vestida de encarnado
Cor do que sinto por ti
Amor tentador, puro pecado.
Levo o mundo nas mãos
E na memória as imagens
Parto rumo à tua última paragem
Para fazer-te uma homenagem

“ Sou prisioneira de ti
Mas sinto-me bem
Desejo-te muito
Não quero estar com mais ninguém.
Chamei-te pela noite
E tu no meu sonho entraste
Quando tinhas tanto para me dar
Mas partiste e não me quiseste levar.
Muitas portas fechei
Por ti me perdi
Mas foi em ti que me encontrei.
Vejo-te como o Sol com o qual fiz a noite
E a noite o meu dia.
Acendeste o meu corpo
E deitaste-te como a minha metade
Entre a ousadia e a sensualidade.
Não te dou descanso eterno, meu amor,
quero que fiques preso a mim,
Quero que ardas no inferno
Nas chamas que criei para ti (e que são nossas).”

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Secretamente, sou eu

Secretamente faço um desabafo no silêncio, que fui aceitando como meu companheiro nas horas em que aprecio a solidão. Nesses momentos torno-me uma simples sombra, um fantasma.
Tornei-me uma solitária, uma refém dos meus medos, uma prisioneira de palavras que assumi como sendo úteis e politicamente corretas para que de alguma forma conseguisse encontrar o meu lugar e me sentir bem na minha pele.
No entanto aprendi  a escrever sobre o amor (e os sentimentos em geral), sem sentir que estava a ser vulgar mas sim a espelhar nas palavras a intemporalidade desse sentimento. Espelhar aquilo que pensava que apenas as pessoas vividas ou experientes seriam capazes de escrever.
O que assumo hoje como sendo o amor? 
É algo que comparo a um lume branco que reconforta e nos dá novas perspetivas das coisas.

sábado, 29 de dezembro de 2012

É segredo


Meu amor, meu amante
Conto-te um segredo que nunca ninguém ouviu:
Já fui cisne, já fui musa, já fui de gelo, já fui nada
E como Fénix renasci.
Hoje sou feita de sonhos
E como donzela, me deleito a teus olhos
Oferecendo-te rosas brancas. 

Nessa necessidade do toque, que me inflama.
E do teu corpo saudosa,
no espaço e no tempo
Me lanço ansiosa
no noturno movimento. 

Ao bater das horas, no correr da noite,
Sinto o gemer da agonia de não te ver chegar.
Chegas no final do tempo.
Sinto na boca o sangue a latejar
Nessa necessidade infernal de te querer beijar.
Esses beijos profundos
como os espinhos que se cravam na pele,
dessas rosas que te trago,
Mas sedosos como o mel.
São eles que me colocam entre a espada e a parede
E a minha pele pálida e frágil
Se rasga perante ti
Quando as rosas me arrancas.
E o meu corpo, em trevas infernais,
traz esses beijos de volúpia
e cravo, felinamente, no teu peito como garras,
os meus dedos,
para que não fiques longe de mim. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Se morresse

Se morresse
ninguém daria por isso.
Seria mais um corpo frio e inerte
Mais uns grãos de pó
Na escuridão
Na sombra dos dias que não conheço
Se morresse

Seria uma gota de chuva
Que incomoda o simples cair
Mas que faz as flores desabrochar.

Se morresse
Seria uma brisa leve
que veio e passou.
Seria o cair da neve
A onda que vai e volta.
Se morresse
Seria a folha de Outono
Leve e frágil.
Seria o silêncio dos teus passos
O som do cair da lágrima.
Se morresse
Seria um simples raio de luz ténue
Na dança de sombra e luz
Num crepúsculo de Inverno.
 

Seria nada e tudo.
Nada que se possa tocar
Tudo o que se possa sentir.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Autópsia poética

Escrevo o que não sinto
Revivo o que senti.
Recorro ao método científico
Para não toldar o pensamento
Pego no bisturi da razão
Para conferir discernimento.
Nessa maca esterilizada,
branca folha de papel
Estendo o corpo morto de sentimentos
Que abro lentamente
Com pequenos cortes perfeitos.
Espreito por essa janela
para efetuar a palpação
Nessa anatomia de um poema
que não tem coração.
Morreu.
E as feridas foram abertas
Com o prazer que já não é seu.
Já não ardem com o mar salgado.
São apenas os restos mortais
de quem sentiu noutra realidade
E é nesse momento da autópsia
Que o poeta sente a liberdade.
Liberdade retratada a preto e branco
Na emergência de uma alucinação (quase) fingida
Ressuscita na "maca" esse corpo
Na arte morta que é a escrita
No olhar de quem lê e de quem sente:
já não é o poeta, és tu.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Na eternidade


Cedo passa a hora
Quando nas ondas que vão e vêm
Sinto o amor nos braços e nas mãos
Pois o Mar sou eu.
Mar prisioneiro que nas profundezas
Fantasmas lá prendeu
E um dia, quem sabe, também morre(u)ram.
Ouve-se o canto sombrio
O canto dos temporais, nesse silêncio mortal.
Rompeu-se aí a saudade
Na dança de sombra e luz
Que encanta e seduz.
enquanto se aguarda o rasgar da escuridão
Na eternidade que é um relógio sem ponteiros.

sábado, 17 de novembro de 2012

Anoiteceu


Fiquei suspensa
Presa com essas algemas libertadoras
dessa dor deliciosa.
Despida à luz do crepúsculo
Sou tua
e entrego-me contra essa parede rubra.
Tiro o teu sossego.
Cada linha do meu corpo
Guardaste na tua bola de cristal
Sufocaste o meu sentir
Nesse beijo profundo e intenso,
força que me prendeu a ti.
Morri em ti, meu pássaro de fogo
Que num sopro fez de mim um ponto de luz
Que se desfez numa vertigem noturna
nas margens do leito.
Um momento com sabor e a preto e branco.
Anoiteceu.