sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A mendiga


Toca o sino.

Dobram as agonias

no correr dos dias.

Existe uma tristeza antiga

que se esconde no rosto da mendiga.

Ando pelas ruas.

Peço apenas um olhar teu.

Deixei na primavera as rosas

Quero apenas o encanto do Amor que seja meu.

 

Agora escrevo pela noite dentro.

Encontro-me onde me queres.

Por trás do meu silêncio

ecoam as palavras na mente.

Surge o poema.

Tocas-me no ombro e desperto de repente.

Estava alheia aos olhares da gente.

 

Renasço quando morro.

No poema sou a praia calma.

Escrevo com o avesso da alma.

Na voz tenho a prece.

O desejo do Amor que não amanhece.

 

O coração é outono.

O rosto é um rio de tristezas.

O Sol seca as lágrimas que não deixei de ter.

Entrelaças as tuas mãos nuas nas minhas.

Não tenho medo.

Estás comigo.

sábado, 27 de julho de 2013

A teia do Tempo


O Amor percorre-me lentamente.

Afundo-me na sua memória

nas carícias, beijos e abraços

que preenchem essa história.

Vejo a Saudade a caminhar

vestida de Tempo

com os olhos raiados de esperança

e me solta os cabelos ao vento.

 

Sinto-me inquieta.

Estou deserta.

Vejo pedaços de mim.

Sinto-me incompleta.

Há uma força que se agiganta.

Existe um grito preso na garganta.

Chamo-te e ouves-me.

Ramos no rio ficam presos na corrente.

Deixo-me arrastar lentamente.

Levas-me contigo.

O rio escorrega tranquilo.

 

Encontras-me e colmatas a tua falta.

Entrelaçamos os dedos.

Ficamos suspensos.

A lua afoga o seu brilho nos corpos desnudados.

Prevalecem poemas calados.

Calo-me para consentir.

Na floresta dos sentidos

sinto que te pertenço-te

sem te possuir.

Com o Amor que arde em fogo lento,

ficamos presos na teia do tempo.

O silêncio é derrubado, por fim.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mergulho e floresço


Deitei-me e escureceu.

A sombra ficou esculpida.

Não existe rosto.

Não existe cor.

O corpo alonga-se no leito.

A luz realça as formas.

Tenho uma insónia.

Revolvo-me na cama.

O tempo adormeceu

mais cedo do que eu.

 

A lua está cega.

A noite está alta

e no seu manto caem as estrelas.

As águas rasam os olhos.

 

Procuras-me.

Aqui estou.

Sei que me queres

e eu sei o que te dou.

Trazes magias nas pontas dos dedos.

Tocas na minha pele e revelas segredos.

Escreves poemas nas linhas do meu corpo

com o Amor e o desejo que nos percorre.

Estou a teu lado.

Perto de ti o meu mundo fica completo.

Perto do teu ser o céu fica mais perto.

Mergulho na frescura do teu rio.

Floresço na primavera

poisada nas mãos de quem me encontrou. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O jardim distante


Os jardins estão distantes.

São ternas lembranças.

Flores que mesmo longe da terra

espalham as suas fragâncias.

Trazem muito de nós:

pedaços de saudade que trago na voz.

Trazem muito mais do que o perfume:

trazem a essência de um amor que não morreu.

 

Das palavras ficou o eco.

Dos nossos corpos ficou a sombra.

Do fogo ficou a cinza.

Das mãos vazias ficou o desejo de enlace.

Do meu coração que na tua mão caberia

ficou a esperança de que ele jamais morreria.

 

Agora beijo o horizonte.

A escuridão abraça-me.

O luar fica a meu lado.

Caminho com o meu vestido vermelho comprido

 com a vida depois de ti.

Flutuo.

A noite começa a cantar-me.

As estrelas olham para mim,

As folhas sussurram o teu nome.

Nada me puxa para ti.

Nada me afasta de ti.

 

Vejo-te ao longe entre a sombra e aluz.

Surges perante mim e prendes as minhas mãos soltas.

Afinal existiremos para sempre. 

domingo, 7 de julho de 2013

A Fénix


Nada trago comigo.

Tenho as penas sem brilho.

O olhar está vidrado.

Não sinto vontade de cantar.

Mergulho na profundidade do caos.

Estou extasiada.

Sou a exaltação de feras selvagens.

Tenho fome e sede de infinito.

Ouço o eco do grito das profundidades da gruta.

Não tenho forças.

O tempo escorre.

Tudo morre quando passo.

O Sol queima a terra que piso.

Busco-me devagar por entre os labirintos da gruta.

No seu interior existem monstros e pavões

que assustam quem na cama se deita.

Creio que não nascerão flores.

 

O sangue começa a pulsar na veia

como o mar enrola na areia.

Surge uma sombra de luz.

Inclino-me para ela.

Liberto-me da treva fria.

Morro em mim.

 

O caminho já não está deserto.

Abandono-me a ti.

A primavera faz florir o que não existe.

O dia começa.

A Fénix, pássaro de fogo, renasce e pousa nos teus braços

onde florescem palavras de Amor

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Quando adormeço


Morri, confesso.

Já não sou eu.

Procurei um rosto que fosse metade do meu.

Possivelmente encontrei-o num sonho.

Acordei cedo demais.

Vou dormir.

 

Sou o caos e a agonia.

O silêncio pousa nas mãos

e tu trazes nos teus dedos a harmonia.

A luz arrasta a noite

quando rompes o nevoeiro

e dou o meu corpo inteiro

derramando a tinta do tinteiro

no papel em que escrevo.

 

Digo-te que estou aqui.

Estou viva e não morri.

Estou bem pertinho de ti.

Amo-te mas o horizonte escurece.

Amo-te e estás distante.

Afinal amo o que não tenho.

Estou carregada de pedaços de ti:

são as Saudades que trago no peito alagado pelo Mar de tristezas,

mágoas e incertezas.

 

É isso que me sufoca.

Recebo o meu desejo trazido no teu beijo.

As águas estremecem.

As palavras renascem e descobrem os nossos corpos desnudados.

O céu está aberto.

Os espaços estão desertos

mas preenchidos com o Canto que trazemos na voz.

Quando acordar espero que estejas a meu lado,

caso contrário voltarei a adormecer.