segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sem penas



 
Escrevo-te palavras curvas

que voltam para

dentro.

Ando assim na órbita

de olhares alheios.

 

Falo-te de palavras vulgares

que existem no dicionário.

Nada é novo para nós

mas é preciso mudar o vocabulário.

 

És um ditado sem erros.

Coloco-te entre aspas

pois és original.

Não és cópia de ninguém.

És tu, apenas,

sem penas.

 

Posso amar-te mais tempo

apenas quando nada

em comum.

Há entre nós uma atração

grav(itacional).

Andamos entre marés.

às vezes altas outras baixas.

Sou uma Lua Nova.

Será que tu és?

Não! És

terrestre.

Olho-te de cima.

 

Ficas sem penas.

Eu sobre elas me deito.

Não consigo amar-te de outro jeito.

 

Deixa-me não me deixando.

Leva-me não me levando.

Toca-me não me sentindo.

Suspende o teu voo

e fica comigo,

sem penas.

domingo, 18 de janeiro de 2015

A Queda


 
Foto: Bezheviy
 
 
Das pedras da rua,

a Palavra

que é lapidar,

ergo o teu corpo

que irei habitar.

 

Se és uma poesia

que surgirá dos poros

frios do Silêncio,

aconchega-a no cobertor

da tua voz.

Não pode constipar.

Haverá sempre uma história

para contar

e para isso,

não é preciso rimar.

 

Chegas antes de te ver,

nas palavras

presas no calor da mão,

agarradas a linhas (in)sensatas

de te querer.

 

Respiras na página

quando desfaço

o abecedário

e lhe dou um novo sentido.

 

Há um problema:

se não souberes ler,

nunca irás compreender

o que te quero dizer.

Diz-se que a Poesia

está escrita em linhas

silenciosas,

ocultas.

É preciso ler nas entrelinhas.

 

Levanta-te.

Vai descendo as escadas,

versos com figuras de estilo,

versos sem comparação.

Vão fazer-te escorregar

no abismo da imaginação.

Agarra-te ao corrimão.

 

Assim vais de asas fechadas

cair no sentido vertical.

Irei amparar-te a queda

num enlace horizontal.

 

E no final, caíste?

domingo, 11 de janeiro de 2015

Perfeitamente Imperfeito


 

Foto: Regard Sur Image (página do Facebook)
 
 
É preciso Tempo.

Quando o ponteiro rodopia no mostrador

não sabemos quando será a hora certa

para ver o Amor.

Em qualquer segundo nos encontraremos.

Nunca esperarás horas por Ele.

 

Se o Amor é cego,

devemos ser preventivos.

Usa óculos.

Ajudará a ter um foco mais objetivo.

 

Corro o risco

de tropeçar.

Segura-me.

Posso cair nos teus braços

grafitados de Amor.

Não te apagues,

por favor.

 

Não te digo o que desejo.

Gostaria.

É algo condicional.

Por esse motivo,

corro o risco de ir para a prisão

por querer mostrar-te o meu coração.

Sei que me irás denunciar

e serás testemunha

do meu aprisionar em ti.

 

Suspira no desmaio

do corpo

nos meus olhos.

Deixo-te focado

e a noite cai no céu da boca.

Abrigo-me debaixo da tua língua.

Fico louca.

 

Existias onde eu

 não estava.

Não achava possível.

No Amor acontece o impossível.

 

Quase me matas

pois o teu toque me tira a respiração.

Preciso do teu beijo

para oxigenar o coração.

Troquemos carbono.

 

No céu mais alto

deslizam as línguas

e fazemos uma sopa de letras.

Ninguém compreende

o que está traçado nos lábios.

 

Fumo.

Inalo o cheiro do teu corpo

que fica na nudez

que me ruboriza a tez.

Nem sei onde coloco as mãos

quando mergulho em ti.

 

Há a reação química

do orgasmo

quando não estás.

Tenho de possuir as Palavras

para ter o que não dás.

Torno-me volátil.

 

És água em mim.

Essencial mas,

 quando sobe a temperatura

expilo-te

pelos poros da pele.

É assim que consigo sentir-te.

 

Tudo isto é perfeitamente

normal

para quem é naturalmente

(im)perfeito.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Intromissão


 
Foto: Pour le plaisir des yeux (página do Facebook)
 
Desculpem.

Preciso de orientação.

Foi de passagem

que perdi a inspiração.

 

Rabisquei o papel com

palavras feias,

erradas,

ilegíveis,

esborratadas.

Até dá vontade de chorar.

Estou a brincar.

 

O pensamento vagueia

mas não me vou inspirar

na Lua Cheia.

Quero algo verdadeiro

e ela só me fala de mentiras.

Afinal ela é vazia.

Não mora lá ninguém.

 

Irritam-me as palavras

carnais.

Nada tentador.

Não posso agarrar

aquilo de que não sinto calor.

 

Não vou escrever sobre sonhos.

Não vou dormir.

Tenho um problema no olhar.

Apenas vejo ao perto.

O que esta longe não consigo alcançar.

Aproxima-te

para te ler melhor.

 

Deito-me a adivinhar

onde podes tropeçar.

Será que é neste verso

ou irás continuar a recitar- (me)?.

Quero ver se te consigo agarrar.

 

Não me quero deitar.

Detesto o que é paralelo.

Prefiro que sejas reto

e vás direto ao ponto.

Caso contrário,

nunca nos encontraremos.

 

Escondo as mãos

nos novelos

dos meus cabelos

e torno-me uma mulher despenteada.

Não fiquei bonita.

Apenas queria aquecer as mãos,

mais nada.

 

Crio estas imagens em silêncio

sobre a espuma das palavras

que me molham os pés.

Entre a Lua e a maré.

Navega em mim

para saberes como é.

 

Tapem os ouvidos.

Apetece-me gritar.

Estou a falar para as paredes,

entendes?

 

Desculpem a intromissão.

Vão ler poesia a sério.

Eu dou permissão.